Editorial - Ajuste suave
As medidas de ajuste adotadas pelo governo nos últimos dias - alta nos juros, sexta-feira, e corte nas despesas públicas, ontem - evidenciam desde logo a preocupação oficial no sentido de ficar à frente dos acontecimentos, diante das turbulências que continuam a ocorrer no mercado mundial. Por sua simplicidade, não chegam a provocar maiores sobressaltos, embora haja possíveis desdobramentos na esfera particular, notadamente na questão dos juros. Com efeito, este é o ponto crucial da questão, até pelos efeitos naturais que vai ter em todo o contexto da economia.
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, assegurou seu apoio às medidas e descartou, inclusive, a convocação dos parlamentares antes das eleições para examinar os cortes no Orçamento. Magalhães lembrou que, ao contrário do que ocorreu em outubro, no início da crise da Ásia, quando teve de se opor à decisão do governo de aumentar o imposto de renda das pessoas físicas, as medidas de agora se limitam basicamente à contenção de gastos públicos, sem mexer no bolso dos trabalhadores. O povo não vai sofrer nada, garantiu. É uma previsão parcial: a alta nos juros terá reflexos, sem dúvida.
Entretanto, e nisto o senador baiano tem razão, dos males este é o menor. A alta na taxa dos juros, que provocará reajustes nas vendas a crédito e pesará também sobre quem opera com cartões de crédito ou usa o saldo devedor em contas bancárias, não constitui algo tão crítico quanto aumentos nos impostos, como ocorreu com o pacote de novembro do ano passado. Assim, de fato, neste momento, as medidas não mexem no bolso dos trabalhadores, ao menos diretamente.
Por outro lado, a determinação relativa aos cortes nos gastos governamentais representa o fator que sempre tem faltado em praticamente todos os programas oficiais: o sacrifício interno do governo, a contrapartida na racionalização dos gastos. No caso, se houver efetivo cumprimento das determinações relativas ao corte nos gastos do governo, isto representará um avanço importante até na própria forma de conduzir o projeto de estabilização da economia que exige da administração uma atitude de contenção e equilíbrio.
De qualquer modo, o ajuste agora anunciado parece bem menos drástico do que se poderia temer ou esperar. Haverá reflexos, evidentemente, inclusive na esfera da produção, até por causa da inevitável alta nos juros. Igualmente, a redução nos gastos oficiais implicará em diminuição, por reflexo, nas atividades em geral. Mas nada tão sério quanto os efeitos das medidas adotadas em 97. O problema é saber se apenas estas diretrizes serão suficientes ou, o que é mais sério, se o governo adotou este ajuste menos traumático apenas em função das eleições. Esta é, aliás, a tese de alguns especialistas que, inclusive, antecipam um forte reajuste fiscal em novembro. Quer dizer, o ajuste de agora seria apenas uma espécie de medida preventiva de emergência, à espera do resultado das eleições. O pior viria depois.
A oposição pode, inclusive, enfocar esta idéia, insistindo em que o governo reserva medidas mais amargas para depois que vencer o pleito. Ocorre que isto não tem muito apelo. Na campanha eleitoral passada, a oposição também tentou convencer o eleitorado que o plano de estabilização cairia logo depois do pleito, o que não aconteceu. Na verdade, o eleitor reage mais em função do que está ocorrendo e não por temor do que possa vir a suceder. Ademais, os quatro anos do Plano Real oferecem uma base de confiança maior em relação ao governo, apesar de muitos de seus desacertos. O que inclui a expectativa de que qualquer ajuste posterior poderá ser aceitável.





