Editorial - Ajuste negociado
Contrariando os especuladores, o presidente Fernando Henrique Cardoso não anunciou nenhum pacote em seu pronunciamento de ontem, e também não veio de caneta cheia com Medidas Provisórias ou outras coisas. Ao contrário, como é natural em uma democracia, informou que as medidas para o ajuste fiscal de longo prazo deverão estar concluídas até 20 de outubro para que sejam discutidas com a sociedade. O presidente reafirmou que não haverá pacote fiscal e nem sustos ou choques. Além de discutir as medidas com a sociedade, segundo FHC, elas serão levadas também aos investidores internacionais. Fernando Henrique reafirmou que é preciso aprovar a reforma da Previdência e não deixou dúvidas: Num cenário de restrição de créditos, seria irresponsável o governante que não tomasse as medidas necessárias para ajustar o curso, afirmou. O presidente falou também que vai se empenhar para que o Congresso Nacional e a sociedade apóiem as reformas necessárias e disse ainda que o Brasil poderá sair mais fortalecido da crise internacional.
Não é apenas o que se esperava, mas o que deve acontecer em um país civilizado. É fato que o Brasil ainda não se livrou da síndrome dos choques econômicos, entretanto é importante rememorar que nem mesmo o pacote de novembro do ano passado teve a conotação dos eventos anteriores, dos golpes que atingiam a população sem apelação ou aviso. Por mais grave que o momento seja, é indiscutível que não se pode aceitar mais o tipo de ação totalitária do Executivo, impondo ao País medidas até abusivas. Uma sociedade organizada conhece os problemas que enfrenta e participa da formulação das soluções. Mesmo tendo obtido a renovação de seu mandato, com a aprovação da maioria absoluta, o que evita a necessidade de um segundo turno, o presidente não se coloca acima do povo, nem o deve atingir com golpes baixos, impondo sacrifícios sem levar em conta todos os fatores envolvidos.
Esta verdadeira ducha de água fria lançada pelo presidente da República sobre os especuladores deveria dar como resultado uma mudança de atitude. Talvez seja demais esperar isto. Os profetas da crise, os defensores do quanto pior melhor vão continuar, agora jogando informações sobre medidas duras que serão anunciadas depois do dia 20. É importante perceber, porém, que esta não é a maneira adequada para enfrentar a questão. O que o sr. Fernando Henrique Cardoso sugeriu, quando disse que pretende discutir com a sociedade as medidas para enfrentar as atuais dificuldades, é que se discuta as alternativas desde já, com profundidade, mas também com objetividade.
Sob este aspecto, a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) apresentou uma postura muito concreta ao lançar um slogan dentro da análise da situação formulada pelo presidente da entidade, senador Fernando Bezerra: Queremos a reforma tributária já, diz a nota, depois de assinalar que a CNI não deverá apoiar o aumento de impostos como medida preferencial para contornar os efeitos da crise financeira internacional na economia brasileira. O ideal é criarmos uma nova estrutura tributária, disse Bezerra. Para ele, um dos fatores da vulnerabilidade brasileira diante das crises internacionais é a sua estrutura tributária arcaica, cuja mudança vem sendo defendida pela entidade há anos. O presidente da CNI insistiu que é possível aprovar a reforma tributária ainda este ano, considerando-se a gravidade do momento. Esta é uma proposta que se insere naquilo que o presidente pretende discutir com a sociedade.





