O resultado das urnas deste domingo, no segundo turno das eleições nos Estados que não definiram seus novos governadores em 4 de outubro, não vai mudar o elenco de medidas que compõem o ajuste fiscal. Mas, apesar disto, a promessa do presidente Fernando Henrique Cardoso de anunciar o ajuste até o dia 20 não foi cumprida. Segundo o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, FHC teria dito que, recebidas as propostas naquela data, precisaria ainda de algum tempo para tomar as decisões finais. O pronunciamento do presidente da República, porém, havia sido taxativo na questão da data, tendo funcionado até como bloqueio às especulações. Na verdade, isto não deu resultado e, cada vez com maior intensidade, surgem os mais disparatados anúncios sobre as medidas que o Executivo deve anunciar e adotar para enfrentar a crise que ameaça a economia nacional. Mesmo assim, a expectativa era a de que já agora o País soubesse o que vai ser feito.
Naturalmente, o novo adiamento só serve para alimentar os boatos. A decisão de só revelar as medidas depois do segundo turno das eleições estaduais ajuda a produzir novas conjecturas, inclusive no sentido de que o ajuste será tão ruim que o Executivo preferiu adiá-lo para não prejudicar seus candidatos ao pleito de domingo. Em cima desta simples idéia é possível criar uma infinidade de especulações, mesmo as mais estapafúrdias. E, desta vez, nem mesmo o Executivo tem condições de obstar nada. Fica o Brasil inteiro, deste modo, em suspenso, sem saber o que esperar, o que vai acontecer, o que poderá mudar em função deste cada vez mais temido ajuste.
É lamentável, mas infelizmente nada há a fazer a respeito. O desejável é que cesse toda esta expectativa e seja divulgado logo o ajuste, inclusive porque só a partir disto é que a sociedade poderá se posicionar. Ademais, segundo o presidente da República, o Executivo não pretende oferecer um ‘pacote’, mas uma série de medidas que, no mínimo, devem ser discutidas pela sociedade. Não deve haver, no caso, muita esperança sobre a possibilidade de que o corpo social tenha condições de alterar muito do que venha a ser proposto. Na verdade, as poucas informações que podem ser consideradas mais ou menos seguras, como as indicações relativas ao projeto de aumentar o percentual do CPMF e de transformá-lo em imposto permanente, já são, por si, algo desalentadoras. É possível perceber que persiste no governo a idéia de que os problemas só podem ser resolvidos com mais impostos, mais sacrifícios sobre a coletividade.
O mais grave é perceber que mantida esta suposta tendência de ampliar a carga tributária haverá novos e maiores problemas para a sociedade como um todo. Os reflexos de um aumento na tributação, entre outras coisas, serão danosos para qualquer tipo de projeto que vise uma retomada do crescimento econômico. E, sem isto, a tendência é de um agravamento geral no quadro social do País, que reclama medidas concretas no sentido de se estimular os investimentos produtivos, o que incluiria a redução na taxa de juros e mudanças mais concretas (e sérias) na legislação trabalhista.
Deste tão anunciado e protelado ajuste, só se pode esperar que possa, de fato, garantir condições para a superação desta crise que parece interminável. Quanto ao mais, a sociedade continua com o direito de insistir para que seus governantes, agora reforçados pelo aval das urnas do dia 4, atuem com objetividade para dar condições ao País de sair desta dura situação que atravessa.

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