O Brasil respira um pouco mais aliviado diante da formalização do pacote de ajuda internacional, que chega à casa dos US$ 41,5 milhões. Naturalmente, como é até comum, a reação ante a formalização do acordo provoca os mais variados comentários. Há os que consideram que a decisão é fantástica e vai resolver os problemas e acabar com a crise, há os que se mostram céticos e também não faltam aqueles que consideram que se trata apenas de um paliativo que não resolverá nada. Como em todas as questões polêmicas, cada parte tem um pouco de razão. É preciso, sem dúvida, que não só a análise, mas principalmente a execução do programa submetido ao FMI para que o País recebesse este socorro emergencial leve em conta que a ajuda externa só resolverá se o Brasil cumprir a sério seus compromissos.
Diante deste socorro, é oportuno lembrar um dos ensinamentos do falecido presidente norte-americano Abraham Lincoln: entre os mandamentos que estabeleceu tinha um indicando que não seria possível criar prosperidade com empréstimos externos. A ajuda que o Brasil recebe é importante e de um modo bem simples pode ser comparada à conquista, por uma pessoa, de um empréstimo bancário em uma emergência. A situação pessoal está complicada, as dívidas são muitas, o que ganha é insuficiente, então ele vai recorrer à saída emergencial, um ‘papagaio’. No momento em que recebe o dinheiro, resolve seu problema imediato, pode pagar os débitos em atraso, fica livre das pressões que acompanham as dificuldades de quem está afundando. Entretanto, isto não significa que seus problemas estejam resolvidos.
O que o devedor que recebeu um empréstimo tem de fazer, ao mesmo tempo em que paga as dívidas em atraso, é reformular sua própria vida, economizar nas despesas, adequar-se ao seu orçamento doméstico, aumentar se possível suas receitas, mudar profundamente seu modo de agir, inclusive com sacrifícios que podem ser tanto maiores quanto mais séria seja sua situação. No caso de um país, isto não é diferente. As dificuldades que o Brasil enfrenta não decorrem das crises externas, da quebradeira russa ou da instabilidade na Ásia. O maior problema do Brasil está no desacerto de suas contas internas, no terrível e não domado déficit público. E se não houver a percepção fundamental sobre isto, somada a um trabalho conjunto e sério para reverter a situação, o pacote de ajuda recebido agora com tanta festa pode se tornar em mais um prego no caixão da inadimplência nacional.
Repetir que toda esta situação poderia ter sido evitada se o Governo Federal tivesse realizado as reformas estruturais programadas na engenharia do plano real não é excessivo. É preciso que se aprenda com os erros, as falhas e, no caso, com as omissões. E que isto sirva para que as coisas mudem. Já tem gente soltando foguetes por conta dos milhões que virão ao Brasil nos próximos meses, considerando que os problemas estão resolvidos e que, portanto, o negócio é curtir o fim do ano e deixar as decisões para 99 ou 2000, que, afinal, está tão perto. Entretanto, esta postura não é só errada, é perigosa e irresponsável.
Precisamente quando recebe um socorro externo tão importante, que permite um desafogo momentâneo, é que o Brasil precisa aproveitar a ocasião e realizar o que não fez até agora. O ajuste fiscal, já no Congresso, é só parte de um todo que não pode mais ser postergado. Trata-se apenas de uma série de medidas de emergência para superar as atuais dificuldades. O importante é que as reformas tão reclamadas sejam finalmente implementadas, que o Brasil, como aquele cidadão em dificuldades que conseguiu um ‘papagaio’ salvador, assuma uma posição responsável e conclua de vez o projeto que assegure a estabilidade.

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