EDITORIAL - Ainda há o que investigar
Considerar que o depoimento prestado pelo ex-secretário do presidente, sr. Eduardo Jorge Caldas Pereira, à subcomissão do Senado que investiga as irregularidades no repasse de verbas para a construção do Fórum Trabalhista de São Paulo resolve tudo, uma vez que o depoente negou qualquer suspeita sobre relações ilegais entre o governo federal e o juiz Nicolau dos Santos Neto, é, no mínimo, ingenuidade. E, seguramente, neste final de milênio, a opinião pública brasileira deixou de ser ingênua. Afinal, não se poderia esperar que o sr. Eduardo Jorge fizesse diante dos senadores, ou em qualquer outro local, uma confissão plena sobre eventuais irregularidades ou abusos de poder. Nos Estados Unidos, sob juramento, uma pessoa pode se negar a responder a alguma pergunta com a alegação de que a resposta pode comprometê-la. No Brasil, e prestando um depoimento sem problemas em relação a perjúrio, é certo que não se ouviria uma confissão de culpa.
Na verdade, o depoimento de um suspeito é parte de uma investigação, servindo na melhor das hipóteses para definir posições, perceber contradições, encontrar novos caminhos. Ao lado disto, há a peça acusatória, que dá origem à convocação do suspeito, e em seguida deve existir uma ampla investigação para se chegar à verdade. Este é o ponto que deveria nortear o trabalho: descobrir entre tantas afirmativas conflitantes o que realmente aconteceu, enfim, elucidar uma questão que envolve o mais elevado interesse público.
Descobrir a verdade e revelá-la de modo pleno à coletividade deveria ser a preocupação de todos os envolvidos. O depoimento do sr. Eduardo Jorge não pode ser considerado conclusivo. O que se reclama na sequência, em nome inclusive da transparência do processo democrático, é um trabalho completo de investigação que deveria ter no mínimo duas vertentes: uma CPI do Congresso, que afinal tem (ou deveria ter) o maior interesse em esclarecer tudo, sem medo sobre os nomes que podem ser envolvidos, e um trabalho da própria Justiça, que é o ramo democrático incumbido precisamente de fazer respeitar as leis e determinar punição aos que a infringem.
Se, como insistem os parlamentares governistas, o sr. Eduardo Jorge está ilibado de qualquer culpa, não há motivos para se lutar com tanta força no sentido de evitar a instauração de uma CPI. É preciso ainda insistir em que a questão não envolve apenas o interesse de uma pessoa, mas está intimamente ligada a um imenso escândalo que seria do interesse do próprio governo elucidar. Não se trata de uma brincadeira, mas de um verdadeiro assalto aos cofres públicos, feito por uma pessoa que, conforme o próprio ex-secretário do presidente confessa, tinha íntimo contato com ele. O fato de o sr. Eduardo Jorge insistir em que apenas se comunicava com o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto para obter informações a respeito de outros juízes, que deveriam ser escolhidos para Tribunais pelo presidente, não encerra o assunto. Ao contrário, deixa mais e maiores dúvidas no ar.
Desde a redemocratização, alguns brasileiros estão tentando a tarefa gigantesca de limpar a vida pública nacional. A partir daquela época, quando se instaurou a plena liberdade de imprensa, houve uma verdadeira avalanche de denúncias, com alguns resultados. Até um presidente eleito acabou forçado a renunciar para não perder o mandato. Muitos deputados, um senador, outros políticos foram efetivamente punidos. Mas este é um resultado pequeno diante do total de denúncias e a impressão é a de que a impunidade persiste nos escalões mais elevados. Só uma investigação plena do caso Eduardo Jorge ajudará a mudar um pouco este hediondo quadro.





