EDITORIAL - Aids, debate e desafio
O informe anual da Unicef, órgão das Nações Unidas que se ocupa com questões ligadas à infância, intitulado O progresso das nações 2000 e publicado na última quarta-feira em Durban, é uma verdadeira convocação de guerra contra a Aids, que atinge dez milhões de jovens com idade inferior a 25 anos. Segundo o informe, apresentado pela diretora-executiva do Fundo das Nações Unidas para a Infância, Carol Bellamy, na XIII Conferência Internacional sobre a Aids, em Durban, que se encerrou ontem, a cada minuto seis jovens com menos de 25 anos são infectados pelo HIV em todo o mundo. Os jovens de 15 a 24 anos representam um terço das pessoas soropositivas do mundo. A Unicef denuncia que a Aids está dizimando o mundo em desenvolvimento, alertando que a África subsaariana é a região mais ferozmente atingida. Em Botswana, uma em cada três adolescentes e um em cada 7 meninos entre 15 e 24 anos de idade estão contagiados pelo HIV, enquanto uma em cada 4 meninas e 1 em cada 10 adolescentes homens são soropositivos em Lesotho, África do Sul e Zimbábue.
Na América Latina, apenas o Haiti (4,9% para os meninos e 2,9% para as jovens adolescentes), a República Dominicana (2,6% e 2,8% respectivamente), Honduras (1,4% e 1,7% ) Panamá (1,7% e 1,4%) e Guatemala (1,2% e 0,9%) ultrapassam a casa de um por cento de pessoas de 15 a 24 anos com HIV-AIDS, diz o relatório. O que os jovens ignoram pode lhes custar a vida, afirma a Unicef, especificando que recentes pesquisas realizadas em 17 países expõem uma perigosa falta de conhecimento da parte deles sobre como se proteger da Aids. As porcentagens de jovens que são incapazes de citar um método para se proteger do contágio da Aids ou que ignoram que uma pessoa contaminada pode ter um aspecto saudável são alarmantes.
Acontecimento mais político do que científico, a Conferência sobre a Aids conseguiu, entretanto, seu principal objetivo: romper o silêncio. A dupla polêmica sobre as causas da Aids e a respeito da negativa do presidente Mbeki de tratar as mulheres grávidas com medicamentos para evitar o contágio do bebê no momento do parto , deu à Conferência de Durban uma ressonância muito superior à que tiveram as anteriores, o que significou um excelente suporte pedagógico para a África, continente no qual continuam imperando os tabus e os preconceitos em relação à doença.
Depois de anos de indiferença, os países ocidentais e as grandes agências internacionais deram a impressão, em Durban, de tomar consciência da terrível situação e parecem dispostos a conceder a ajuda financeira maior para lutar contra o problema. De fato, as consequências econômicas da doença já são imensas e ameaçam o bem-estar das gerações futuras: a Aids esvazia os campos e dizima a população em idade de trabalhar. No entanto, o balanço científico não é muito otimista. A vacina, para a qual os cientistas dirigem seus esforços, estará disponível na melhor das expectativas dentro de cinco a sete anos e as caras triterapias, acessíveis apenas aos países ricos, não estão isentas de efeitos colaterais. O mal continua a fazer vítimas, em todo o mundo, apesar das campanhas e alertas. A denúncia da Unicef, que se soma aos outros dados discutidos na Conferência de Durban, pode ter servido para um novo e vital alerta a respeito de uma questão que reclama atenção mais ampla em todos os países do mundo, de vez que a doença não tem fronteiras e atinge indiscriminadamente a ricos e pobres, jovens e adultos, homens e mulheres. É um flagelo real a desafiar a inteligência e, mais que isto, a vontade dos povos no sentido de se estabelecer uma guerra real a fim de enfrentar com eficácia este, até agora, incontrolável mal.





