A mais recente estimativa da safra agrícola argentina, que está terminando de ser colhida, indica uma produção recorde de 66,2 milhões de toneladas de grãos e ameaça a posição brasileira de maior produtor agrícola na parte sul do continente. Nos últimos cinco anos, a safra argentina de grãos cresceu mais de 60%, saindo de 40,6 milhões de toneladas para 66,2 milhões de toneladas, enquanto a produção brasileira, que foi de 76 milhões de toneladas na safra 1993/94, ficou praticamente ‘‘empacada’’, resultando este ano em 77,9 milhões de toneladas de grãos. Quando se sabe que a extensão territorial da Argentina é de 2,7 milhões de quilômetros quadrados - contra 8,5 milhões de quilômetros quadrados do Brasil - é possível perceber que há alguma coisa muita errada nesta questão. Ou os argentinos são muito competentes ou o Brasil é sobremaneira incompetente.
O levantamento de julho da Secretaria de Agricultura e Pesca da Argentina revela que o bom volume de chuvas no inverno ajudou o país a obter safras recordes de milho e soja. A produção estimada de milho é de 19,6 milhões de toneladas, ou 2,2% superior à estimativa de junho, e consolida a Argentina como o principal exportador mundial do produto depois dos Estados Unidos. A produtividade recorde da lavoura também ajudou os argentinos a colher a maior safra de soja da história, com 18,5 milhões de toneladas.
A produção de grãos dos países do Mercosul na safra 1997/98 é recorde, com cerca de 150 milhões de toneladas, e consolida a região como o segundo maior bloco produtor/exportador de grãos, depois dos Estados Unidos. Embora a Argentina seja vista por alguns produtores brasileiros como grande concorrente no Mercosul, especialistas da área agrícola asseguram que, se o bloco é mesmo para valer, é preciso reunir forças para a conquista de novos mercados.
Alguns lembram que, apesar do desempenho excepcional da Argentina na safra de grãos colhida, é no Brasil que está o maior potencial de terras agricultáveis do Mercosul, talvez o último lugar do planeta com terra e tecnologia suficiente para atender à demanda mundial por alimentos.
O secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Ailton Barcelos, observa que a população do planeta aumenta em 90 milhões de pessoas a cada ano. Barcelos costuma repetir um dado que considera impressionante: três crianças nascem a cada segundo no mundo. O Brasil, segundo ele, tem potencial para ajudar a alimentar a população mundial, pois dispõe de 80 milhões de hectares agricultáveis nos cerrados, ainda virgens e por serem explorados, que podem aumentar em nove vezes a produção de soja e milho.
Não se trata, basicamente, de um tipo de competição. O que ressalta nos números, entretanto, é que enquanto os vizinhos argentinos deram atenção à sua agricultura, com o que lograram um aumento de 60% na produção em cinco anos, o Brasil estagnou. E isto se reflete em todos os setores. Descurar a agricultura não é apenas negativo para a economia, mas para o próprio (e tão comentado) social. Pois se trata de resolver os problemas da fome, da miséria, do abandono em que vivem milhões, aqui e lá fora. Quando se observam as cenas dantescas, mostradas principalmente pelos jornais, dos famintos do Sudão, sente-se a imensidão do drama. E quando se percebe que o Brasil pode, apenas dando apoio ao campo, triplicar a produção de alimentos, minorando a tragédia da fome no País e no mundo, é possível dizer que a omissão oficial no setor pode ser considerada um verdadeiro crime contra a humanidade. Uma situação que, sem dúvida, não pode continuar.

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