O novo ataque aéreo norte-americano contra o Iraque, deflagrado na madrugada de ontem, justificado pelo governo dos Estados Unidos como uma represália à falta de colaboração do regime de Bagdá com os inspetores da ONU, constitui o tipo de agressão que contraria inclusive o eventual senso de civilização humana. A alegada falta de colaboração do Iraque em relação ao pessoal que a ONU nomeou para verificar a destruição das armas químicas ou de outras, por parte do governo Saddam Hussein, não chega a ser convincente. E, por outro lado, o ataque, neste momento, parece uma ação excessiva diante dos fatos.
É inegável que o Iraque se tornou marginal, no mundo, quando invadiu o Kuwait, uma atitude inaceitável para os chamados padrões de civilização. Talvez se o mundo tivesse reagido no passado, diante da Alemanha nazista, por exemplo, com a firmeza como agiu contra o Iraque, por ter invadido e incorporado uma nação soberana, toda a História da raça humana fosse diferente. Com efeito, a contínua omissão das nações do mundo ante as sucessivas agressões nazistas aos seus vizinhos estimulou a criação da máquina que levou à Segunda Guerra Mundial. Saddam Hussein, no Iraque, pensou que podia fazer o mesmo que Hitler há meio século, e se lançou à aventura esmagando um país vizinho. Desta vez, o mundo reagiu. E foi à guerra.
O ataque realizado, então, não tinha como ser contestado. Houve sucessivos apelos para que o Iraque recuasse. Como Saddam Hussein não o fez, acabou sofrendo os efeitos disto: o Kuwait foi libertado, o Iraque quase massacrado. O fato de não se ter levado a repressão ao Iraque às últimas consequências - invasão completa, destruição do país, destituição de seus governantes - milita em favor da civilidade humana: não se tratava de depor o governo de um país independente, mas apenas restaurar a situação e proteger aquele que fora atacado. Além da derrota, com toda a humilhação que isto implica, houve também sanções, apoiadas pela ONU, uma espécie de punição adicional diante da agressão feita pelo governo de Saddam Hussein.
De então para cá, a situação tem sido complexa. O povo iraquiano está sofrendo de modo dramático os efeitos das sanções. Há fome, miséria, doença e morte. Muito bem, é culpa do governo iraquiano, que não cede às pressões. Mas por maior que seja esta culpa, é discutível se um tipo de agressão, como este realizado agora, constitui a medida adequada. E há também a considerar que não se está diante de uma ação com o apoio do organismo mundial, a ONU, que, em tese, é quem implantou as sanções, mas de uma agressão lançada sem qualquer aval. Os Estados Unidos (com o apoio da Grã-Bretanha, tradicional aliada) resolveram bombardear o Iraque, assim como um pai severo decide dar uma surra no filho (ou enteado) rebelde. Ou, o que também pode ser considerado, como um ‘ranger’ impondo sua lei sobre tudo e sobre todos, sem levar em conta qualquer coisa a não ser sua vontade.
O governo do Iraque merece a repulsa mundial pelo que fez ao Kuwait, pela insistência abusiva em não se submeter às normas de convivência mundiais. Continua a ser, como a Líbia, em certo sentido, um marginal no mundo. Mas há meios para enfrentar este tipo de atitude. Existem as sanções, que podem ser ainda ampliadas. O uso da força, ainda mais numa decisão unilateral e abusiva, com motivação que é inclusive discutível, não pode ser aceito por uma humanidade que se diz civilizada e ordeira. O ato do governo norte-americano chega a ser quase tão irresponsável quanto o de Saddam Hussein, quando atacou o Kuwait, indefeso. Mas, claro, como se trata dos EUA, não haverá sanções contra o presidente Bill Clinton e seu governo.

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