Agosto preocupante
O mês de agosto teve, durante muitos anos, uma conotação preocupante na vida política brasileira. Foi em agosto, dia 24, em 1954, que o então presidente Getúlio Vargas cometeu suicídio, na culminância de um processo que havia começado no dia 5, com o assassinato do major Ruben Vaz, da Aeronáutica, que protegia o jornalista Carlos Lacerda, em violenta campanha contra o chefe do governo. Foi também em agosto, sete anos depois, no dia 25, que o então presidente Jânio Quadros renunciou, lançando o país em uma crise que acabou conduzindo quase que irreversivelmente para o golpe, em 1964. Desde então, quando agosto chegava, os políticos tremiam, os brasileiros se assustavam. E embora não tenham ocorrido mais situações similares às de 54 e de 61 nos agostos subsequentes, o temor persistiu, fruto mesmo de um clima de instabilidade política que gerava permanentes preocupações.
Este que é o último agosto dos anos mil começou com outras preocupações, em especial às relativas às previsões sobre o fim do mundo, no último dia 11. A previsão não se concretizou, mas a agitação política que vem ocorrendo desde o começo do ano, principalmente após a desvalorização do real e todos os problemas disto decorrentes, amplia os temores e desemboca com uma série de acontecimentos que fazem despertar antigas preocupações. A Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou sua 17ª pesquisa Vox Populi, referente a agosto, que mostra que o índice de insatisfação da população com o presidente Fernando Henrique Cardoso subiu de 53% em junho para 59% neste mês. A pesquisa foi feita entre os dias 7 e 10, com 1.993 entrevistados, em 195 municípios de todos os pontos do País. A política de controle da inflação, segundo a pesquisa, está descontentando 81% da população. O presidente da CNT, Clésio Andrade, considerou graves os números, lembrando que FHC já superou o índice de rejeição do ex-presidente Fernando Collor, no momento do impeachment, e já está a um ponto do índice máximo de rejeição do ex-presidente José Sarney, que chegou a 60%.
Isoladamente, estes índices, ainda que elevados, não assustam. Vale lembrar mesmo a situação do ex-presidente José Sarney, que batalhou incessantemente pelo quinto ano de mandato e que, naquele último ano, deixou o País à deriva. Foi uma época em que alguns saudosistas chegaram a cunhar frases como ‘eu era feliz e não sabia’, citando o período anterior a Sarney, o da ditadura. Todavia, toda a insatisfação existente e as próprias lamentáveis perspectivas foram canalizadas para o pleito em que o sr. Fernando Collor foi eleito. Quanto a Collor, sua situação só se deteriorou, mesmo, em função das denúncias de seu irmão, que deflagraram o processo que levou à sua saída. A insatisfação genérica evidenciada em pesquisa, por si, não causa abalos. O problema é que há outros fatores. Ruralistas realizam manifestação forte, em Brasília. Lideranças políticas de oposição se mobilizam, lançando inclusive propostas pela renúncia do presidente e até por novas eleições, o que não faz parte do elenco de medidas legalmente aceitáveis. Paralelamente, os aliados políticos do presidente também se mostram reticentes em suas posições. Até mesmo em seu partido, o PSDB, surgem defecções, como se nota com a decisão da executiva paranaense, que anuncia uma desvinculação do governo federal.
A soma de tais fatos é que produz tremores porque indica agitação que vai além da insatisfação detectada em pesquisas. Os que se manifestam contra o presidente apenas expressam opinião calcada em situações reais, mas não pensam em alternativas. Ocorre que toda esta agitação pode animar aqueles para quem há lucros a tirar de instabilidade e insatisfação. E isto é o que deve preocupar os brasileiros neste agosto.

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