Editorial - Agitação e instabilidade
Agitação e instabilidade
Este ano de 1999 deveria ser de tranquilidade política, ensejando a oportunidade para que houvesse importantes (e necessários) avanços na esfera das reformas estruturais, ainda postergadas. O Brasil já se acostumou a este tipo de calendário político bienal: no ano de eleições que acontecem alternadamente nos anos pares , já se sabe que a ação política efetiva, principalmente o trabalho Legislativo, vai ser limitada. Durante quase todo o chamado ano eleitoral os políticos se dividem entre o que devem fazer, em especial os detentores de mandato, e a pugna eleitoral. São períodos em que o trabalho efetivo só acontece até a metade do ano. Depois, as campanhas eleitorais tomam o espaço, e a luta fica para depois das eleições. Para compensar, nos anos ímpares existem condições e clima para um avanço na atividade legislativa. Deste modo, e ainda mais diante das pressões que estão aumentando na medida em que as muitas reformas projetadas desde o lançamento do Plano Real ainda não se concretizaram, era previsível que houvesse um período de tranquilidade política e resultados positivos na atuação legislativa.
Infelizmente, porém, o quadro que se vislumbra não é este. O Brasil, que começou o ano de modo agitado, com a desvalorização do real, ainda não conseguiu sair da aparentemente imensa crise econômica que volta a assolar setores sensíveis. Depois de todas as oscilações ocorridas em janeiro, as medidas adotadas pelas autoridades econômicas davam a impressão de que os maiores problemas estavam sob controle. Persistia, ainda, e se ampliava nos primeiros meses do ano, a crise social, o desemprego crescia de modo preocupante. Ao lado disto, sérias denúncias envolvendo ajuda do Banco Central a bancos particulares, produziam mais incerteza. Todavia, o mais grave em tudo era a agitação política, que está, sem dúvida, na base mesmo do quadro de instabilidade.
A reforma ministerial que o presidente Fernando Henrique Cardoso acabou fazendo com menos de seis meses de seu novo mandato, é bastante elucidativa da origem real desta situação. É certo que se pode detectar a ação especulativa a pressionar mercados e a própria moeda. Todavia, não há como deixar de perceber que até mesmo a especulação só consegue vicejar se encontra terreno propício. Isto é, se o País estivesse vivendo uma situação politicamente estável, não haveria condições para que proliferassem os atos capazes de mergulhar o mercado em agitação. Na base das dificuldades que dão a impressão de se multiplicar está muito evidente a falta de firmeza do governo, agravada pela ação dos seus próprios aliados, indicando aquilo que alguns já citam com uma insistência alarmante: o Executivo se mostra frágil, despreparado até para enfrentar este tipo de agitação, criando um clima de instabilidade que passa do político ao econômico.
Trata-se, inegavelmente, de uma situação atípica, ainda mais quando se recorda que o ano imediatamente posterior às eleições presidenciais e estaduais deve ser mais tranquilo porque a atividade político-partidária estaria voltada para os pleitos municipais do ano subsequente. Presidente e governadores estariam vivendo o período tranquilo de tomada de posse, tendo preservadas, pelo menos por algum tempo, as esperanças que os votos formalizaram. É natural perceber que o quadro mudou em função da reeleição que produziu uma nova realidade.
Alguns analistas já estão, inclusive, sugerindo um retorno à situação anterior, questionando a reeleição dos chefes de Executivo. Pode ser uma alternativa a ser estudada. Ocorre que este tipo de solução não resolve o problema atual que reclama, principalmente do presidente reeleito, a coragem para assumir seu papel, enfrentando a agitação política para superar a instabilidade econômica.





