Editorial - ACM e a pobreza
ACM e a pobreza
O senador Antônio Carlos Magalhães, aparentemente cansado de ser tido como uma espécie de eminência parda da democracia, ele que já havia deixado claro há alguns anos detestar o apelido de Toninho Malvadeza, dá a impressão de estar investindo todo seu esforço político junto com a habilidade que o caracteriza para ganhar um outro título, o de Pai dos pobres. O presidente do Senado está usando de todos os seus indiscutíveis talentos para levar adiante a proposta lançada há algum tempo no sentido de criar um fundo destinado a reduzir a miséria no País. Em franca rota de colisão com o Governo Federal - o que não é novidade na carreira do camaleônico líder político -, o senador contesta a posição do ministro da Fazenda, discute com a primeira- dama, responsável pelos programas sociais do Executivo, e enfatiza uma postura que assusta quando afirma que o Congresso é autônomo e tudo o que insere na Constituição deve ser cumprido.
Ninguém discute a autonomia do Congresso, ponto focal para a estruturação da democracia como a temos, com três Poderes autônomos e independentes, que devem, porém, agir de modo comum, visando - e este é o principal item, infelizmente desprezado por muitos políticos - propiciar condições melhores de vida para o povo. Na verdade, o que falta constantemente na postura analítica de muitos políticos é a percepção sobre quem é efetivamente o dono do poder no País. A famosa (e basilar) colocação segundo a qual o Poder emana do povo e em seu nome será exercido é muitas vezes esquecida ou obliterada.
O senador Antônio Carlos Magalhães, ao acenar com o poder do Congresso para decidir o que queira, independente do que pense o Executivo, envereda por um caminho complicado. Ademais, dá a idéia de estar incorrendo no mesmo erro dos excepcionalmente bem-intencionados membros da Assembléia Constituinte, que nos brindou com a Constituição em vigor desde 1988. Uma das grandes falhas da citada Carta, e que representa a causa dos maiores problemas que os governos sucessivos enfrentaram até agora, foi precisamente a inserção ali de uma série de benesses que não levaram em conta a realidade. Quase que dentro desta idéia do senador Antônio Carlos Magalhães, os constituintes incluíram imensos benefícios na Constituição de 88, sem levar em conta a questão básica da falta de recursos. Criaram obrigações, atrelaram o governo a coisas que não podem ser feitas, não levaram em conta o básico da administração pública, esquecidos de que, sem meios, mesmo as mais elevadas intenções caem no vazio. O resultado disto tudo foi magnificamente conceituado pelo presidente que primeiro teve de conviver com a atual Carta, o sr. José Sarney, que afirmou que com ela o Brasil ficava ingovernável.
O presidente do Senado, neste até louvável afã de criar melhores condições de vida para o povo, parece esquecido das lições do passado e, também por isto, corre o risco de repetir erros que já custaram caro aos brasileiros, especialmente os mais carentes, que são os que mais pagam pelas estultices dos governantes. Envolvido com um projeto que talvez, em seu modo de pensar, resgate sua figura e o coloque num pedestal, o senador sequer percebe coisas que ocorrem a seu redor e que, possivelmente, poderiam ajudar mais aos pobres do que o seu sonhado fundo. Por exemplo: notícias divulgadas durante a semana indicam que a gráfica do Senado (Casa que é presidida pelo senador dos pobres) gasta tanto quanto os programas assistenciais do governo com suas publicações. Eis uma verba que poderia ser melhor usada, em benefício dos pobres que são, segundo o discurso, a preocupação atual do senador. Mas isto, pelo visto, nem passa pela cabeça do sr. Antônio Carlos Magalhães.





