EDITORIAL - Ação que avança
A Medida Cautelar impetrada pelo Ministério Público, envolvendo o prefeito de Londrina, Antônio Belinati, a vice-governadora Emília Belinati, esposa do prefeito, o filho do casal e deputado estadual Antônio Carlos e mais meia centena de pessoas, incluindo ocupantes ou ex-ocupantes de cargos de responsabilidade na administração municipal ou empresários, atinge a um importante objetivo, além até do que foi proposto na ação: serve para dar ao povo uma espécie de satisfação diante de tantas denúncias de corrupção que ganharam destaque nacional. Com efeito, desde a redemocratização (ocorrida há 15 anos), os brasileiros começaram a ser informados de uma sequência de escândalos, envolvendo principalmente políticos, alguns dos quais de reputação até então ilibada. A famosa expressão mar de lama passou a ser repetida com impressionante regularidade. Apesar de no bojo de tantas denúncias ter ocorrido até a queda de um presidente, a população vem se sentindo e não é de hoje frustrada porque não tem assistido à punição dos responsáveis. Alguns políticos perderam mandato e aconteceram algumas poucas prisões, em especial envolvendo fraudes contra a Previdência, mas o resultado final ainda tem sido pequeno diante da magnitude das acusações.
A onda de denúncias de corrupção e abusos começou com o restabelecimento da democracia. Nos últimos tempos, porém, o processo ganhou uma dimensão verdadeiramente assustadora em todo o País. E o que se tem são revelações sobre envolvimento de autoridades com o crime organizado, superfaturamento na realização de obras públicas, incluindo prédios para a Justiça, organizações criminosas agindo dentro de governos municipais (como em São Paulo), enfim, uma variedade imensa de crimes sendo apresentada à população como uma verdadeira avalanche. Em determinados momentos, o número de denúncias é tão vasto que até fica difícil o acompanhamento de todas.
Mais grave ainda é que, apesar de tantas acusações, não parecem surgir consequências efetivas na mesma amplitude. Prefeitos, vereadores, deputados, juízes, policiais, delegados é representativo o total dos que são alvo de acusação. Poucos, porém, vão para a cadeia (e logo saem) e nem sempre se consegue o ressarcimento dos valores desviados, deixando o prejuízo para a população, que como de costume é quem acaba pagando a conta. Esta situação não apenas irrita o povo, como faz aumentar a descrença em relação ao sistema, que por vezes dá a impressão de não oferecer instrumentos capazes de conter a corrupção, punir os responsáveis e eliminar a impunidade. Nesse contexto, a Medida Cautelar impetrada pelo Ministério Público em Londrina, histórica pela sua amplitude, deve ser encarada como uma atitude concreta diante de tudo o que vem sendo investigado e divulgado sobre os desvios de recursos.
É preciso perceber, entretanto, que o processo todo ainda vai demorar, mesmo porque deve seguir o ritmo normal da Justiça. Outra observação fundamental é que a ação não significa que as pessoas envolvidas pelo pedido de quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico e indisponibilidade de bens são realmente culpadas. Faz parte da cultura popular considerar que quem quer que seja denunciado, por qualquer motivo, tenha culpa. Os denunciados precisam ter todas as condições para defesa antes que se possa condená-los ou absolvê-los, naturalmente.
O importante é que neste como em tantos outros casos de denúncia de corrupção no setor público haja transparência para que o povo possa ser informado de tudo o que se faz em seu nome.





