EDITORIAL - Ação contra a alta
A alta dos combustíveis, acompanhada pela terrível onda de frio que está atingindo praticamente toda a Região Sul, trouxe como consequência uma verdadeira cascata de elevação nos preços, que passa pela gasolina, chega às passagens aéreas, aos carros, ao leite, culminando nos hortifrutigranjeiros, provocando natural preocupação do consumidor tema de ampla reportagem publicada ontem nesta Folha. É neste momento, sem dúvida, que se faz necessária a atenção e o cuidado do consumidor-cidadão. O cidadão, sabe-se, é informado. Assim, tem pleno conhecimento da situação, entende perfeitamente os mecanismos de preços e sabe que só o aumento dos derivados de petróleo provoca por si tendências de elevação geral. Igualmente tem percepção sobre o resultado de uma onda de frio como a que está atingindo todo o Sul, com efeitos diretos sobre a produção de produtos agrícolas. Entretanto, não há como desconhecer a existência de um certo grau de especulação em ocasiões como esta. Os tempos mudaram, a economia brasileira apresentou enormes transformações, a inflação já se registra em níveis civilizados, abaixo de 1% ao mês, não chegando sequer aos 2 dígitos no ano, mas o especulador continua firme e presente na vida, buscando aproveitar toda e qualquer oportunidade para explorar o consumidor e obter não apenas a reposição justa, diante de certos problemas, mas a alta abusiva que alimenta sua natural cobiça.
Ocorre que, inclusive em função das transformações acontecidas na economia, há certas realidades que representam fator naturalmente inibidor da especulação. Para começar, o salário do trabalhador não tem, como na época da inflação exacerbada, correções mensais. Quando muito, tem aumento anual e só algumas categorias conseguem a reposição da inflação do ano. Vale ainda lembrar que só no capítulo da gasolina, os preços do produto subiram muito mais que a inflação desde a implantação do real. Outra situação a ser percebida é a dos desempregados, que formam ainda uma imensa população, e a dos subempregados, os que sequer ganham o mínimo. Em síntese, o Brasil que trabalha (ou que quer trabalhar) vive em dificuldades.
O resultado natural desta situação é que ponderável parcela da população acaba não consumindo por falta mesmo de recursos. Resta, porém, aquela outra parte, a dos que ainda têm condições para consumir. É aí que deve entrar em ação o decantado espírito de cidadania, até porque mesmo os que têm possibilidades para aceitar os preços mais elevados que vêm sendo praticados em quase todos os setores igualmente enfrentam problemas. De qualquer modo, só mesmo uma atitude firme, por parte do consumidor, é que poderá fazer reverter um pouco esta tendência altista, eliminando precisamente o excesso que se pode atribuir à especulação.
O próprio mercado oferece atualmente alternativas para o consumidor. Os preços dos derivados do petróleo, notadamente a gasolina, variam de posto para posto. Sabe-se que existem esforços, em alguns municípios, para a formação de cartéis que provocam altas desnecessárias. Entretanto, a sociedade também tem de estar atenta a isto, exigindo a ação dos organismos responsáveis contra este tipo de prática. De outro lado, há as outras alternativas, que vão desde a substituição de produtos até a simples eliminação dos que estão muito mais caros da lista de compras. A atuação efetiva do consumidor-cidadão, pesquisando preços, rejeitando abusos, realizando o trabalho que representa, ademais, a valorização de seus próprios recursos, constitui fator primordial na luta contra os abusos, servindo como freio à especulação e garantia de persistência da tão importante estabilidade da moeda.





