Editorial A volta de Pinochet A detenção do ex-ditador chileno Augusto Pinochet, na Grã-Bretanha, não teve o final desejado pelos que queriam ver, numa cena rara na história, o julgamento e a condenação de um tirano. O que se pretendia era Pinochet sentado no banco dos réus, ouvindo as denúncias sobre as atrocidades cometidas durante o seu regime e, afinal, sendo condenado. Seria um epílogo fantástico até para o século 20, marcando de modo indelével a ruptura da sociedade civilizada com aqueles que, ao longo de toda a história da humanidade, torturaram, mataram, seviciaram, submeteram a todo o tipo de indignidade gente inocente. Como repetiu de modo sábio o historiador Henry Thomás, a História da raça humana tem sido uma sucessão de guerras e crimes. Seria sem dúvida adequado que neste último ano do século 20 um ditador recebesse o castigo que deveria ter sido dado a tantos que como ele (ou até em proporção maior) infelicitaram a humanidade com sua simples existência. Entretanto, Pinochet escapou pela via que não deixou aberta a nenhuma de suas vítimas: por razões humanitárias, o ex-tirano foi devolvido a sua terra e ao seu povo (que, talvez, seja o mais indicado para decidir o que fazer com aquela agora triste figura), escapando aos tribunais da Espanha ou de outros países depois de passar um ano e 4 meses como prisioneiro em Londres, enquanto a Justiça decidia seu destino. Este fato, ademais, em certo sentido, tem também um significado importante neste final de milênio, mostrando a diferença entre o modo de agir dos ditadores e de uma sociedade civilizada e democrática. O senso humanitário só existe onde há liberdade, democracia, respeito à dignidade humana, o que falta às ditaduras e aos ditadores. Restam algumas compensações, como destacou a Human Rights Watch, ligada à defesa dos direitos humanos. Para esta organização norte-americana, a detenção de Pinochet por quase 17 meses foi um avanço na luta contra os totalitários de todos os matizes. ‘‘O simples fato de ele ter sido detido e de que sua exigência de impunidade fosse rejeitada mudou os cálculos dos ditadores em todo o mundo’’, disse Reed Brody, diretor da Human Rights Watch. Já a filha de Salvador Allende, o presidente chileno deposto e morto pelo golpe de Pinochet, também mostra perceber a punição contra o ex-ditador. Ela lembrou que Pinochet ‘‘saiu do Chile com uma pessoa rodeada de um certo prestígio e regressa como alguém que, se não fosse por razões de compaixão, estaria a caminho da Espanha’’. E completou: ‘‘Ele chegará ao Chile como um cadáver político’’. Isabel Allende destacou ainda que o caso demonstra que os ditadores não poderão, de agora em diante, desfrutar da impunidade, o que sem dúvida é a principal consequência de todo o episódio. Uma das defensoras do ditador, a ex-primeira-ministra britânica Margareth Thatcher, que lembrou sempre o apoio dado por Pinochet na Guerra das Malvinas, foi desde o início uma das poucas vozes em defesa do tirano e se mostrou feliz pela decisão final a respeito do assunto. Ela acabou cunhando, sem querer, a frase que, se espera, defina mesmo uma nova realidade na vida humana. ‘‘Amigos do Reino Unido, fiquem atentos, pode lhes ocorrer o mesmo’’, disse ela. A veneranda ex-dirigente britânica talvez pretendesse advertir o governo a respeitar os amigos, independente do que tenham feito. Mas deixou no ar a esperança de que, como aconteceu com Pinochet, os tiranos e carrascos que enlutam a raça humana não mais encontrem guarida em lugares civilizados. Esta deve ser a principal consequência do episódio Pinochet, agora encerrado, representando sem dúvida um avanço para o respeito à dignidade dos seres humanos em todo o mundo.