Uma simples notícia, divulgada ontem pela agência France Presse, com procedência de Nova York, mostra o que há verdadeiramente por trás não só desta onda de bombardeios contra a Iugoslávia, mas de todas as guerras. Segundo o despacho, as ações das indústrias de armas e dos fabricantes de outros materiais militares nas bolsas norte-americanas se beneficiaram grandemente com o conflito na Iugoslávia. Quase uma semana depois do início dos ataques das forças aliadas contra a Iugoslávia, inclusive com o lançamento de mísseis a partir de navios no Mar Adriático, a valorização das ações das empresas ligadas ao setor da defesa é, em média, mais significativa que a alta global da bolsa. O despacho continua, informando que já em janeiro de 1991, quando as forças ocidentais retomaram a ofensiva contra o Iraque, bombardeando em massa o território iraquiano, a bolsa norte-americana subira às alturas. Desta vez, alguns valores das indústrias de armamentos se beneficiaram mais do conflito iugoslavo que de outros. É o caso da Raytheon, com atividade muito mais centrada nos materiais eletrônicos de defesa, tanto em aparelhos militares como em mísseis. A Raytheon fabrica o míssil cruise Tomahawk, com preço unitário de US$ 750.000. O United Technologies, outro grupo de alta tecnologia e proprietário da fabrica de helicópteros Sikorsky, ganhou 3,4% desde o início do conflito, em especial nos últimos dias.
É muito fácil e, sem dúvida alguma, politicamente correto, apresentar justificativas humanitárias para atitudes bélicas. No caso do ataque ao Iraque, em 1991, havia a atitude anterior do governo de Bagdá, que invadira e se apossara de outro país, o Kuwait. A ONU se lançou à guerra para ‘preservar a situação de uma nação soberana’. Agora, é a vez da Otan, com a ajuda maciça dos Estados Unidos, de se lançar contra outra nação, não por causa da eventual anexação de territórios independentes, mas devido a atos considerados criminosos contra minorias internas. Não há qualquer dúvida sobre a validade da justificativa. O que acontece em Kosovo é realmente assustador. As imagens mostradas sobre a situação dos habitantes daquela província, obrigados a fugir de suas casas para escapar ao massacre, são chocantes. Uma realidade que, infelizmente, ainda ocorre em muitos outros pontos deste planeta.
O que, porém, não pode ser deixado de lado é o aspecto sujo, verdadeiramente podre, de todo o episódio. A informação relativa à valorização das ações da indústria de armas revela uma realidade que acompanha a vida na face da Terra. Nos anos que precederam a 2ª Guerra Mundial, a ação das indústrias de armamento foi mais efetiva e forte do que a de qualquer outro grupo. E o excepcional crescimento econômico durante os anos da referida guerra não pode ser esquecido. Houve pleno emprego, nos Estados Unidos, produção maciça, riqueza crescente, especialmente para os que desenvolviam, fabricavam e vendiam armas.
Com o fim da ‘guerra fria’, a indústria bélica perdeu muito. Construir arados não é tão lucrativo quanto fabricar tanques, até porque os primeiros duram muito e os últimos, normalmente, são rapidamente destruídos, reclamando reposição. O mesmo em relação a todos os tipos de armamentos, encalhados desde que os focos de tensão foram consideravelmente reduzidos diante do esboroamento da União Soviética. A Iugoslávia hoje, como o Iraque no começo da década, representa fatos importantes para dar rápidos e fortes lucros à indústria da morte. Vale rememorar que, apenas com o bloqueio econômico, conseguiu-se acabar com o ‘apartheid’ na África do Sul. Atitudes semelhantes poderiam funcionar contra os genocidas da Iugoslávia, os belicistas do Iraque. Mas, naturalmente, não fariam subir tanto as ações da indústria em Wall Street.

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