Editorial - A tragédia da fome
Mais importante do que os números sobre desnutrição no mundo divulgados pelo Unicef, órgão das Nações Unidas que trata de problemas ligados à infância, revelando que 6 milhões de crianças morrem anualmente vítimas deste mal, está a conclusão do trabalho: para vencer a chamada emergência silenciosa e o subdesenvolvimento é preciso a vontade de fazê-lo. O documento, divulgado ontem em Paris, assinala que numa economia mundial que maneja 28 bilhões de dólares o problema com toda segurança não é a falta de recursos. De modo prático, o Unicef assinala como remediar as carências alimentares: enriquecer o sal em iodo (o que já é feito em 26 países em desenvolvimento), completar o aporte das mulheres em vitaminas, em ferro e em ácido fólico (vitaminas de tipo B), e aportar sais de reidratação às crianças.
A solução passa também pelo acesso de todos aos produtos alimentícios em quantidade e qualidade suficientes, pela eficácia dos serviços de saúde, sem falar no acesso à água potável e ao saneamento, que fazem muita falta nos países pobres. Documento destaca que o leite materno contribui também para boa nutrição infantil, desde que a mãe se beneficie de alimentação adequada: isso implica o fim das discriminações alimentícias, sociais e sanitárias que sofrem milhões de mulheres do Terceiro Mundo.
O Unicef insiste em que a ajuda financeira ao desenvolvimento deve ser aumentada (os países ricos só consagram 0,27% de seu PNB nesse sentido) e reorientada para as necessidades sociais essenciais. E, por último, pede que se alivie a astronômica dívida do Terceiro Mundo, que em 1995 passava de 2 trilhões de dólares.
À primeira vista, a conclusão do Unicef a respeito da necessidade de vontade para se resolver o drama da fome no mundo parece simplista. Talvez o seja. Todavia, é possível perceber que a solução da maior parte dos problemas que os seres humanos enfrentam é simples. Trata-se, em verdade, de se perceber qual é a real prioridade que move as pessoas, os governos, os Estados. Todo o discurso dos políticos em campanha eleitoral e dos caudilhos que tomam o poder pela força é o mesmo: todos têm o objetivo de dar ao povo aquilo que ele reclama e necessita. E, no fim, o que mais as pessoas precisam é de comida, roupa, possibilidade de trabalho decente e vida digna. Infelizmente, porém, o discurso do político ou do ditador pouco tem a ver com a realidade. No fundo, o que há é vontade de dominar, mandar, impor, ter poder. Raramente existe a verdadeira disposição de oferecer solução efetiva para os problemas que afligem os seres humanos.
Como assinala o Unicef, a questão não é falta de recursos. O que falta é a disposição mundial para enfrentar este desafio com a mesma vontade com que povos e governos dedicam para conseguir tudo quanto obtêm. Não é admissível que os seres humanos, no estágio de civilização e progresso técnico alcançado neste final de milênio, sejam incapazes de resolver o simples problema de alimentar a todos no mundo. Há terra suficiente (e boa parte ainda não explorada), há técnicas disponíveis, há recursos. O que é necessário, pura e simplesmente, é a adoção de medidas concretas, de um mutirão universal destinado a atender a este objetivo. A fome, a desnutrição, a miséria não são parte da herança do homem. Representam pura e simplesmente a consequência do egoísmo coletivo que é, ainda, o pior mal que envolve este pobre e minúsculo planeta.





