Editorial - A tartaruga e o avestruz
É natural a tendência das pessoas, da sociedade, dos governos, para a acomodação. De modo geral, temem-se as mudanças, acreditando-se que elas vão tornar as coisas piores do que já estão. Entretanto, mudar é preciso, ainda mais quando a crise é endêmica e não acidental. Na Ásia, é do primeiro tipo e no Brasil pode-se dizer que temos a endêmica - pois nossos problemas vêm de muito tempo e estão fortemente enraizados - e as acidentais. Portanto, temos tudo em dose dupla e não podemos nos permitir qualquer acomodação. Aqui e do outro lado do mundo é preciso ter a coragem de mudar para superar problemas e evoluir.
Farto da inflação e em busca da estabilidade econômica, o Brasil conseguiu criar um plano inédito no mundo, diferente do argentino, do boliviano, do israelense, do mexicano. A inflação despencou e a economia não afundou na recessão, ao contrário desses outros países. E isto porque a estabilidade brasileira atraiu o capital internacional, mesmo depois que os juros passaram a ser mais baixos do que no começo.
O sucesso foi imediato. Tanto que, até chegar a crise asiática, a tendência para a acomodação fez-nos agir como se tudo estivesse resolvido. Como as reformas eram indigestas, o Congresso torceu o nariz, o Governo recolheu os pratos e os partidos aliados rasgaram o convite para o jantar. O choque asiático teve o poder de sacudir o Governo e o Congresso e de fazê-los voltar à realidade.
O efeito inicial é bom: o Congresso se dispôs a agilizar o trabalho, tanto no que diz respeito às reformas como ao pacote de medidas de emergência, uma agitação positiva moveu o Governo na direção antes esquecida, reanimando as esperanças da sociedade de que a estabilidade econômica será mantida.
No entanto, é preciso manter o espírito de urgência. A tendência à acomodação pode afetar novamente as ações. A crise internacional não passou. Agora é o Japão que está mexendo com o mundo, o que é muito diferente de todos os tigres asiáticos juntos. Ainda que se queira ardentemente que a situação internacional se acomode, isto dificilmente vai acontecer a curto prazo.
Se a segunda economia do mundo está sendo atingida pela crise, isto significa que o processo de ajuste das economias é muito mais amplo e difícil do que se imaginava. O acompanhamento permanente da situação pelo Brasil é hoje tão necessário quanto vinha sendo o trabalho das autoridades econômicas na gestão interna do Plano Real, para enfrentar os problemas que iam surgindo com o desenvolvimento do programa.
A inserção do Brasil no mercado global é necessária e inevitável, e por isso mesmo é preciso uma atenção maior ao que ocorre no mundo. Sem esquecer que é preciso também apressar o passo no plano interno. Foi-se o tempo em que era possível empurrar os problemas com a barriga ou enfiar a cabeça no chão. Quando nossa economia era fechada ao mundo, podíamos fazer as duas coisas. Hoje, feliz ou infelizmente, a tartaruga e o avestruz não podem mais ser nossos modelos.





