Para surpresa do mercado financeiro, o Banco Central brasileiro reduziu os juros esta semana num percentual maior do que esperado. Exatamente 1,5 ponto percentual abaixo da expectativa. Isto significa que para cada R$ 100 mil de dívida, o devedor deixou de pagar R$ 1.650,00 de juros, em relação ao que passou a pagar desde o último dia 29. Mas, na verdade, significa muito mais. Em poucas palavras, a decisão do Comitê de Política Monetária do BC é um sinal de que podemos confiar que a autoridade monetária no Brasil voltará, gradualmente, a um estado de razoável sanidade mental.
O juro brasileiro é uma completa sandice, e não é de hoje. Desde que entramos no processo hiperinflacionário, após o fracasso do Plano Cruzado, e em decorrência de nossos históricos e escandalosos rombos orçamentários, os juros brasileiros são muito superiores à inflação. Mas, pelo menos ficavam
somente entre 1 e 2 pontos percentuais acima da inflação mensal. Anualizado, isto dava uma taxa em torno de 18% reais ao ano. Inédita no mundo.
Com o Plano Real, o juro real - isto é, a parte que excede a taxa de inflação - simplesmente enlouqueceu. Já batemos em 30% reais antes da crise asiática, e depois dela a 40% ao ano. São níveis tão insanos que muitos tomadores de dinheiro - gente séria e empresas competentes - estão com saudades do último dia antes do choque asiático, quando a taxa real anual andava pela casa dos 20%. Como nos tempos da hiperinflação.
Naquela época, o aperto monetário foi usado para impedir não a explosão dos preços, que já ocorria, mas a detonação da economia inteira, nos moldes de uma hecatombe nuclear. Este era o dramático argumento de ministros como os srs. Dilson Funaro, Bresser Pereira, Mailson da Nóbrega, a sra. Zélia Cardoso de Melo, os srs. Marcílio Marques Moreira e tantos outros para justificar as incríveis taxas de juros reais em suas gestões.
Nem sonhávamos que o pior estava por vir. Com o Real, as altas taxas do passado viraram anãs, sob o argumento de que algo ainda mais terrível do que uma hecatombe aconteceria se os juros não fossem levados para outros patamares. O que isto poderia ser ninguém soube dizer direito. Falou-se em apocalipse, e o fato é que os juros foram levados para as alturas de 30% reais ao ano. Nenhum mercado do mundo praticou alguma vez na vida essas taxas. Mas todo mundo sabe o que pode acontecer se os juros forem mantidos perto disto por muito tempo...
O tempo, aliás, depende da capacidade de resistência da economia. Pode ser muito curto - três meses, por exemplo -, produzindo-se uma recessão aguda, mas rápida. Na Inglaterra de Margareth Thatcher, onde os juros não chegaram a tanto (15%), o tempo foi uma eternidade e a economia quase sossobrou. No Brasil, o choque dos juros tem quatro meses e, se parasse por aqui, produziria uma redução do ritmo de crescimento econômico de 50% este ano, segundo estimativa do próprio Governo: crescimento de 4% no ano passado, contra 2% este ano.
Para que um apocalipse de verdade não aconteça, o Brasil tem que continuar privatizando - como está fazendo e como Thatcher fez - e as reformas têm que sair. Na verdade, a urgência deveria ser para elas e não para as privatizações. Trocamos as bolas do jogo, e agora resta esperar que o Congresso tenha boa vontade e o Governo apresente à Nação, com urgência, um projeto de reforma tributária, que simplesmente não existe.
E se, junto com as reformas, o BC der outras podadas nos juros - 5 pontos em março, 5 em abril e mais 5 em maio, pois afinal os asiáticos já estarão salvos -, será nossa vez de nos salvarmos a nós mesmos.

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