Editorial - A situação dos professores
Em São Paulo, a greve dos professores acabou sem que se possa considerar que houve qualquer vitória para os mestres. Indica-se que a agressão cometida contra o governador Mário Covas acabou por frustrar o movimento. No Paraná, o Governo do Estado pressiona e a categoria faz assembléia hoje a fim de decidir os rumos do movimento. Com o fim da greve em São Paulo, há a impressão de um esvaziamento, embora, naturalmente, cada Estado tenha sua própria realidade. E a evidente pressão que vem sendo exercida pelo Governo paranaense deixa dúvidas sobre a possibilidade de prosseguimento da paralisação. Pior é que fica no ar a impressão de uma derrota, porque as reivindicações da categoria não foram aceitas.
É preciso observar, porém, que se há algum derrotado face à greve de São Paulo ou se haverá alguém que possa ser considerado vencido caso o movimento seja suspenso no Paraná, não é o professorado, nem o pessoal todo que trabalha na área da educação. A derrota maior é da coletividade que, uma vez mais, vê os profissionais responsáveis pela base, vale dizer pelo futuro do País, envolvidos numa desgastante paralisação que por fim acabou não dando os resultados esperados. Nação que maltrata professores, pressiona, ameaça e não oferece condições adequadas para o importante exercício de sua profissão está se condenando a um futuro perigoso. Pior é acompanhar a verdadeira hipocrisia dos discursos relativos à educação, os anúncios em que se destaca a preocupação oficial com o tema, o que é desmentido pelos fatos.
Lamentavelmente, há quem queira, inclusive, culpar os professores pela situação atual do país. Pondera-se que se o Brasil está enfrentando tantos problemas, se os governantes se mostram incapazes, isto é culpa dos professores, que no passado não souberam dar àquelas que seriam as gerações futuras a base necessária para mudar a realidade. O que acontece, contudo, é que a desatenção em relação aos mestres e à educação é antiga no Brasil. Se os governantes são incompetentes devido a maus professores que tiveram, isto se deve à péssima educação havida já no passado e é também o resultado de uma política de falta de interesse histórico em relação ao assunto.
O compromisso de hoje seria o de se modificar tudo isto, de resgatar devidamente o respeito aos professores, de criar-se condições novas para que a educação fosse, de fato, prioritária e importante neste país. Não é, porém, o que se faz. Os erros continuam a ser cometidos e a justificativa em relação ao passado não pode ser aceita, nem resolve. Assim também é discutível a alegação sobre a falta de recursos, que está presente em todas as justificativas oficiais diante de todos os justos reclamos da população. Isto, é importante destacar, em um país em que a carga tributária é uma das mais pesadas do mundo. Quer dizer, o brasileiro paga mais impostos que o cidadão de outros países e ainda assim tem os piores serviços, a educação mais abandonada, problemas de saúde e segurança que não são resolvidos porque faltam recursos.
O que falta, entretanto, é vontade, é seriedade. Ademais, a alocação dos recursos constitui uma questão de disposição dos governantes. Do mesmo modo, a melhor administração dos valores disponíveis poderia produzir resultados, assim como o combate aos abusos. São bem recentes as múltiplas denúncias relativas a desvios de verbas do Fundef, com recursos destinados a melhorar as condições dos profissionais da educação, sem nenhuma conclusão ou punição. O que se precisa mesmo é de governos dispostos a dar à educação o que ela precisa e merece, sem forçar professores a tanto sofrimento para exercer seu sagrado trabalho.





