Editorial - A revolução de outubro
Dos pouco mais de 160 milhões de brasileiros, 109 milhões (quase 70%) estão aptos a participar da grande maratona da democracia, em outubro, escolhendo os prefeitos e vereadores de todos os 5.548 municípios do País. De acordo com o calendário eleitoral, os candidatos já estão em condições de lançar suas campanhas, embora a perspectiva seja a de que apenas em agosto, e mais especificamente a partir do começo da propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV, é que a corrida dos postulantes ao voto vai se tornar mais intensa. De qualquer modo, o importante é que o quadro sucessório está montado, os candidatos já foram definidos e incumbe ao eleitor, a partir de agora, começar o seu trabalho de escolha. Existe tempo, há condições plenas e totais de informação e, principalmente, o eleitor tem a mais ampla possibilidade de análise porque terá de se definir entre pessoas de sua comunidade, escolhendo gente mais próxima entre os candidatos às Câmaras Municipais e também às Prefeituras.
O fato de neste pleito ser possível, pela primeira vez, a reeleição dos prefeitos, não muda em muito as coisas. Afinal, no último pleito, o eleitor brasileiro já trabalhou com esta possibilidade nas eleições para presidente e governador. Por outro lado, a análise sobre o desempenho do prefeito que seja candidato a um novo mandato é também mais fácil, até mesmo pela proximidade entre o chefe do Executivo municipal e o cidadão.
Desnecessário seria encarecer a importância do pleito municipal. Eleger o presidente (e os brasileiros lutaram muito para ter restaurado este direito) é valioso, escolher governadores, deputados, senadores, enfim todos os representantes do povo nos mais diferentes postos da República, é um direito sagrado. Mas a escolha dos governantes municipais representa um estágio mais concreto porque se está definindo aqueles que estão mais próximos da população, vivem a mesma realidade, fazem parte do mesmo e vital universo do cidadão. O município é a base, o fundamento mesmo de todo o sistema de governo. Para muitos estudiosos, só o município é real porque é ali que o cidadão vive. Estados e União são projeções.
Talvez haja um certo excesso na afirmativa, mas é indiscutível que as decisões adotadas em nível municipal atingem de forma direta ao cidadão. E não se pode esquecer que nas Câmaras Municipais é que surgem muitas lideranças novas que poderão, em alguns anos, estar em postos de comando da vida estadual e nacional. Muitos ex-vereadores e ex-prefeitos estão hoje em governos de Estado, em Assembléias, no Congresso e já houve até presidentes que começaram suas carreiras em Câmaras Municipais. Para muitos, é o primeiro passo na vida pública. Esta situação também indica a importância de uma escolha adequada por parte do eleitor, que acaba projetando seus candidatos a carreiras pelos mais diferentes caminhos do poder.
Mais importante ainda do que tudo isto é a observação da atual realidade brasileira. Nunca como agora ocorreram tantas denúncias contra detentores de cargos públicos, inclusive prefeitos e vereadores. Em alguns casos, como em Londrina, o prefeito foi cassado. De modo geral, porém, o próprio processo contra um prefeito ou um vereador é difícil, doloroso e complexo. É imperioso repetir que mais fácil do que obter a cassação de um prefeito ou vereador corrupto é não eleger o político que não esteja à altura dos padrões de moralidade que se exige. É difícil, sem dúvida, para o eleitor, fazer a correta distinção. Todavia, há tempo para isto. E com consciência cidadã, o eleitorado pode fazer do pleito de outubro uma nova e fundamental revolução na democracia brasileira.





