Editorial

A resposta do consumidor
A partir do Plano Real, a vida dos brasileiros passou por uma série de mudanças, entre elas a necessidade de desenvolver uma nova mentalidade para fazer frente às novas condições da economia. Isto se tornou necessário não só para as pessoas em geral, mas também para as empresas de todos os portes e para todos os governos, municipais, estaduais e federal. A inflação, que como um câncer destrói as bases de sustentação da economia, é mais que um fenômeno econômico, pois se alastra pelo psicossocial e causa profundas deformações na moral e na ética da sociedade. Com o tempo - e no Brasil o processo inflacionário durou décadas - torna-se também um vício, um modo de vida, uma maneira de ser que destaca o que há de pior em cada um.
A nova situação de preços estáveis e livre concorrência - possível pelo fim da indexação - foi recebida com euforia pelos consumidores, mas suas implicações não foram suficientemente percebidas. Os primeiros meses de explosão no consumo provocaram inadimplência generalizada. Os preços e os salários não estavam ajustados entre si e os juros, extremamente elevados no começo do Plano, desequilibraram não só as empresas, mas as economias domésticas.
O impacto foi grande e deixou sequelas profundas em todos os níveis: governos, comércio, agricultura, indústria, serviços e a população em geral. Há setores - principalmente na área pública - que ainda não se conscientizaram sobre a importância da mudança de mentalidade para viver numa economia estável. Felizmente, tanto entre os consumidores como nos setores produtivos as mudanças estão acontecendo, com ajustes amargos mas necessários diante da nova realidade econômica. No entanto, nesta hora de novos desafios reaparecem antigos vícios que, retomados agora, vão causar sérios danos não tanto a terceiros, mas aos seus próprios portadores.
O aumento de impostos já está levando empresas de porte a cair na tentação - no vício - de repassar o custo adiante, até o consumidor final. É exatamente o que se fazia nos tempos da inflação, quando todos repassavam tudo, sem pensar nas consequências para seu próprio negócio porque a indexação ‘ajustava’ tudo. Mas isto não dá mais certo. Pode parecer terrível para uns, mas não vai funcionar simplesmente porque o dinheiro é curto, o comprador é seletivo e a concorrência é, no bom sentido, selvagem.
A verdade é que tanto o comércio como a indústria ainda têm gorduras a cortar, apesar dos ajustes que já fizeram em seus negócios. E o próprio consumidor ainda tem espaço para manobrar. Existe desperdício no consumo e na produção. Hoje, mais do que antes da crise asiática, é preciso vender mais por preço menor para ganhar na quantidade. Para isso é preciso melhorar a produtividade e modernizar-se.
Nestes poucos anos de estabilidade, o Brasil ainda está longe do ponto de equilíbrio porque nossas despesas não foram adequadamente reduzidas e nossas receitas proveitosamente ampliadas. No momento em que surgem novas dificuldades, como a carga maior de impostos, precisamos ajustar ainda mais profundamente as nossas vidas. Os percalços da economia, neste momento, são naturais e o ajuste que o País faz pode ser melhor absorvido se persistirmos no espírito que tem norteado a ação, principalmente do consumidor.
Pois ele é, no fim, o grande agente desta transformação. Se falta a determinados segmentos da produção, em todos os níveis, sensibilidade para a atual situação, incumbirá ao consumidor dar a resposta simples e clara que é a não aceitação do preço alto, do abuso ou da exploração.

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