A realidade do comércio mundial
Chega a ser ingênua a idéia de que as negociações da 3ª Conferência Ministerial da Organização Mundial de Comércio, que se realiza em Seattle, em clima conturbado por protestos e manifestações, possa produzir resultados que tornem mais civilizado o relacionamento entre os povos. São posições conflitantes e, apesar de todo o discurso em tom agradável, não disfarçam a realidade que acompanha o quadro das relações comerciais entre as nações ao longo dos tempos. As anunciadas boas intenções se chocam com os imensos interesses em jogo e a idéia básica que vem norteando as relações mundiais desde tempos imemoriais persiste, constituindo-se em uma verdadeira guerra, sem armas, mas com a mesma dureza dos campos de batalha. ‘Amigos, amigos, negócios à parte’, esta antiga máxima, que tem sido seguida ao longo dos séculos, parece dar o verdadeiro tom não apenas neste encontro, mas no contexto mesmo das negociações entre os povos.
A esperança de uma negociação em que os países mais ricos deixassem de lado seus interesses para buscar um clima de apoio mútuo vai se escoando. O que se percebe é a persistência das posições radicais em defesa de interesses próprios e a utilização de estratégias que objetivam manter a situação costumeira em que os mais poderosos continuam auferindo todas as vantagens, enquanto os demais ficam com as migalhas. Apelos dos países chamados em desenvolvimento contra o protecionismo dos países europeus, no que tange à agricultura, não atingem o objetivo. Preocupados, talvez justamente com as pressões internas, os ministros dos países europeus se negam a mudar seu comportamento, ao tempo em que continuam a exigir concessões e abertura por parte das nações mais pobres. A impressão é a de que o comércio mundial ainda é uma via de mão única em que os mais ricos continuam a manter seus privilégios e os menos favorecidos seguem sem muitas alternativas em sua sina de caudatários do chamado desenvolvimento global.
Não é o que se poderia desejar, mas é a realidade pura e simples de um chamado capitalismo selvagem em que os mais fortes, dentro mesmo de uma idéia que acompanha o próprio desenvolvimento da chamada civilização humana, insistem em manter suas posições e em ampliar suas próprias vantagens, sem qualquer tipo de visão eventualmente humanista. É a guerra sem canhões, tanques ou bombas, mas igualmente cruenta e quem se aventura a ela com a doce inocência dos que acreditam na intrínseca bondade humana corre o risco de sair com tremendas perdas.
A idéia de uma Organização Mundial que concilie interesses entre as partes, em um mundo muito dividido e de imensas diferenças, no qual os ricos são muito poderosos e os pobres enfrentam tremendas dificuldades, é bela na conceituação, mas complicada na realização. O que se tem, efetivamente, é um quadro em que cada país deve usar o que tem como arma para superar seus obstáculos.
Neste quadro, é lamentável ver países como o Brasil, com seu imenso potencial, ainda enfrentando as agruras das nações mais pobres do planeta, inclusive sofrendo ataques cínicos sobre suas práticas trabalhistas, que não chegam a mascarar a intenção básica de se manter indefinidamente o quadro de predomínio dos mais ricos sobre os demais. Todavia, quando se desmascara a intenção aparentemente amistosa dos mais poderosos, tem-se o caminho natural a seguir: o Brasil precisa usar seu potencial, investir em sua capacidade para se impor, também no âmbito comercial, não pelo bom-mocismo dos parceiros mundiais, mas pelo que pode ter e ser no contexto de um mundo que necessita do que este país pode oferecer, desde que potencialize sua produção e enfrente os adversários com a força que possui.

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