A punição de Pinochet
Para Augusto Pinochet e todos os seus asseclas, ao longo do período sanguinário que marcou o totalitarismo no Chile, o estado de saúde de suas vítimas era o que menos importava, não havendo também qualquer distinção em relação ao sexo ou à idade dos que caíam nas mãos dos sicários da ditadura. Homens e mulheres, crianças e velhos, chilenos e estrangeiros, sãos ou doentes, isto pouco importava. Na verdade, o regime transformava os que estavam em boas condições de saúde em vegetais, pela tortura, sem qualquer tipo de preocupação humanitária. Pinochet, como todos os ditadores antes e depois dele, usava a mão de ferro contra os opositores, sem respeitar direitos universais, aguardar pronunciamentos judiciais, obedecer leis ou regulamentos.
Agora, preso em Londres, aguardando os trâmites legais para a decisão sobre o pedido de extradição para ser julgado na Espanha por alguns dos crimes de seu regime contra cidadãos espanhóis, Pinochet usa seu precário estado de saúde e sua idade avançada como meio para fugir ao julgamento que todo o mundo civilizado espera e deseja. De fato, a extradição de Pinochet e seu julgamento na Espanha representaria um sinal de mudança concreta no modo como a sociedade civilizada encara a ação marginal dos tiranos de toda a espécie. Diante da magnitude dos crimes de que é acusado, a idéia de que o ex-ditador possa escapar provoca natural repulsa.
O que está ocorrendo com Pinochet, desde que foi detido em Londres, onde se encontrava para realizar exames e tratamento médicos, tem sido acompanhado com enorme atenção pelo mundo. É a primeira vez que um ex-tirano pode vir a ser julgado por parte de seus crimes, o que poderia até funcionar como um freio aos que sonham repetir sua nefanda obra, em muitos países. E não se pense que os seguidores de Pinochet estão em extinção. Aqui mesmo no Brasil, no final do ano, em manifestação de desagravo ao demitido chefe da Aeronáutica, alguns militares (e até um deputado) fizeram discursos francamente favoráveis aos sistemas totalitários. A punição a Pinochet seria um repúdio explícito aos que intentam em seguir seu exemplo.
Há porém uma questão que vai além da figura trôpega do ex-tirano. Trata-se justamente da diferença que caracteriza ditaduras de todos os matizes e regimes democráticos. A primeira não tem escrúpulos ou limites. Verdadeiros criminosos são abrigados pelo manto do poder. Obviamente os Pinochets de todos os tempos merecem não só o repúdio, mas toda a condenação que possam receber. Entretanto, não há como aceitar que sejam privados dos direitos que uma democracia outorga a qualquer cidadão, até mesmo aos criminosos.
Pinochet, independente de sua frágil figura atual, é um criminoso. No entanto, o senso humanitário que representa a base moral de uma sociedade civilizada, ligado à idéia de Justiça, implica em considerar que não se pode dar a ninguém um tratamento desumano. Talvez até por causa disto a democracia seja, muitas vezes, vítima de seus opositores. Mas se Pinochet escapar do julgamento pela porta de uma piedade que jamais mostrou em relação às suas vítimas, isto não significa que a democracia seja permissiva. Importa perceber que, moralmente, Pinochet já está sendo punido. Todo este processo indica que o mundo mudou e não há neste planeta lugar para figuras como a do ex-ditador chileno.