Editorial - A ponte de Guaíra
Nos primórdios do cristianismo, alguns convertidos discutiam sobre quem lhes havia levado a mensagem, dando mais mérito a um ou outro dos discípulos, o que fez com que Paulo, em uma de suas cartas, lembrasse que todos são de Cristo. Guardadas as proporções, pode-se dizer o mesmo em relação à ponte de Guaíra, que o governador Jaime Lerner inaugura hoje.
Para os paranaenses, importa menos saber quem fez a parte maior da obra: o que vale é a ponte em si. E, mais ainda, se tem razão o ex-governador que iniciou a ponte ao reivindicar méritos pela iniciativa, é inequívoco o valor daquele que a conclui, ainda mais quando é prática comum no Brasil deixar inconclusas obras iniciadas por antecessores adversários - em flagrante desrespeito ao povo e ao contribuinte.
Poucos são os governantes que entendem que o importante é dar sequência a obras que beneficiam a população. É certo também que, quando isto acontece, quase todos tentam ficar com o mérito integral da obra, mesmo quando o predecessor é um aliado político. Mas a evolução da consciência política brasileira tem mostrado que isto não cola mais. O povo sabe perfeitamente reconhecer o trabalho de quem planejou, de quem começou e de quem terminou. Melhor que tudo, porém, é perceber na continuidade e na conclusão o absolutamente necessário respeito ao dinheiro público, que não pode ser jogado fora em obras inacabadas. Uma das justificativas para se admitir a possibilidade de reeleição dos chefes de Executivo foi justamente a necessidade de concluir obras que atravessam o período de um mandato e o governante seguinte relega a segundo plano. O argumento só poderia ter o significado que teve na época da votação da emenda porque no Brasil este tipo de crime contra a economia popular é um vício histórico.
Sempre haverá obras que não poderão ser concluídas por um governante, algumas nem mesmo em dois mandatos consecutivos. É o caso de Guaíra, que sofreu com a falta de verbas, e será o caso do Anel de Integração do Paraná, concebido pelo atual governo e cujas obras apenas começaram e só vão estar concluídas dentro de oito anos.
É, portanto, uma obrigação de quem assume mandanto executivo continuar o trabalho iniciado, levando em conta que o interesse da coletividade deve estar acima de qualquer outra coisa.
O Paraná tem muitas e importantes obras que foram tocadas ao longo de várias administrações. Somos, aliás, quase que uma exceção nacional. Compreendemos, felizmente, que o político passa e a obra permanece, que o cargo é transitório e a ação permanente.
A ponte de Guaíra, vale relembrar, é uma antiga aspiração e uma obra mais que necessária. Sua importância é imensa e vai garantir um renovado desenvolvimento para todo o Estado. A ponta reduzirá tempo e distância para o escoamento das safras de uma imensa região do Centro-Oeste brasileiro pelo porto de Paranaguá. É ainda um importante meio de intercâmbio não só com países do Mercosul, como Paraguai e Chile, mas com o Peru, o Equador e a Bolívia.
Com a ponte, melhoram também as condições para o crescimento de uma região que foi duramente sacrificada pela construção de Itaipu, perdendo uma das mais belas atrações naturais do Brasil, as Sete Quedas de Guaíra, agora cobertas pelo lago. É, no mínimo, uma compensação mais que necessária, com efeitos importantes para todo o Estado.





