O acordo de paz assinado entre israelenses e palestinos mostrou, no começo desta década, que quando existe vontade entre os homens para encontrar caminhos de entendimento, nada é impossível. O fim do bloco soviético, no fim da década passada, com a inesperada queda do Muro de Berlim, é outro exemplo. E a assinatura, nesta Sexta-feira Santa, de um acordo histórico entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, abrindo caminho para a paz numa comunidade que protagonizou uma das mais violentas guerras civis deste século, confirma que a vontade comum e a diplomacia podem fazer mais pela humanidade do que todos os exércitos juntos, regulares ou não.
O sanguinário conflito que durante 30 anos desgraçou a Irlanda era motivo de perplexidade para o mundo. Ao contrário do que muitos pensaram, o conflito nunca foi uma guerra religiosa, embora a religião fosse uma das diferenças entre os dois lados. Era algo mais profundo, envolvendo disputas sociais, econômicas e políticas, inclusive a forma de governo: os católicos defendendo a independência da Irlanda do Norte, a exemplo da República da Irlanda, no sul, e os protestantes sua permanência na Comunidade Britânica.
Com a disposição dos que enxergam na negociação sempre o melhor dos caminhos, e após a superação de duríssimas dificuldades, um acordo foi atingido. Não é o fim de todos os problemas, mas é o começo de uma solução. O processo, assim como o que envolve judeus e palestinos, deve enfrentar ainda muitos obstáculos. Mas, o importante é a prevalência da vontade comum de se abandonar as armas da destruição e negociar soluções.
Os céticos podem dizer que a paz ainda está muito distante e lembrar que a situação no Oriente Médio pouco mudou depois dos históricos acordos de Madri e Washington e dos prêmios Nobel da Paz para Yasser Arafat e Yitzak Rabin. Como em toda manifestação de ceticismo, isto é meia verdade. Apesar de todos os conflitos que estão acontecendo, judeus e palestinos nunca estiveram tão próximos da paz neste século como agora. Os radicais judeus e palestinos estão, na verdade, dando seus últimos vagidos de resistência, aqueles que acompanham todos os nascimentos e logo se esgotam.
O equívoco dos céticos está na falta de percepção sobre a importância do primeiro passo. Porque depois do primeiro acordo assinado, quando os oponentes aparentemente irreconciliáveis conseguem apertar as mãos, a situação nunca mais será a mesma de antes. O mais difícil, entre judeus e palestinos ou entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, é chegar ao primeiro aperto de mãos.
O caminho para a plena pacificação da Irlanda do Norte certamente é longo e difícil. É possível que ainda ocorram, como se observa em Israel, atentados terroristas. Mas o avanço alcançado no primeiro passo é irreversível, se as duas partes mantiverem acesa a chama da vontade e da paz.

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