Editorial - A palavra de Malan
A palavra de Malan
Diante do impacto da taxa inflacionária do mês passado e da ameaça de ser superada a previsão deste ano, o ministro Pedro Malan, sentindo os temores da população, já garantiu incisivamente que a inflação não vai voltar. Para sustentar esta afirmativa, o ministro assinalou que os aumentos que pressionaram a taxa, em outubro, como os dos automóveis, da carne e do álcool, não vão se repetir, reafirmando que as metas estabelecidas pelo governo serão cumpridas, tanto neste como nos próximos anos. Adicionalmente, desmentiu as informações de que o governo voltaria a controlar as tarifas públicas para impedir novos aumentos no custo de vida, garantindo que não existe nenhuma intenção de se restaurar a interferência oficial no sistema, por entender que isto não funciona.
É bom ouvir afirmativas positivas do ministro da Fazenda, até porque a população tem participado com coragem e disposição da luta contra a inflação, o abuso, a especulação, aceitando sacrifícios enormes, consciente de que uma volta à situação anterior ao plano de estabilização representaria um duro golpe para a coletividade. Entretanto, como a experiência brasileira já comprovou em inúmeras outras ocasiões, garantias e afirmativas de ministros (como também de presidentes) não são suficientes para mudar determinados quadros. Dizer que a inflação não volta representa um propósito ou uma idéia. Mas evitar que isto ocorra exige mais do que palavras. E o que se percebe é que existem, efetivamente, condições fortes para que o Brasil mergulhe de novo naquele terrível ciclo que vivenciou por décadas.
Uma empresa de consultoria argentina, a Fundação Capital (FC), presidida pelo economista Martín Redrado, em análise feita no começo deste mês, enfatizou que com o sistema cambial flutuante e a consequente desvalorização persistente do real devido à falta de reformas econômicas estruturais e da reprogramação da dívida pública, pode acontecer um novo surto inflacionário. A instituição estimou que a indexação de tarifas e salários é cada vez mais provável e, portanto, apontou este como o canal que levará à volta da inflação. A instituição preveniu que sem a implementação das reformas estruturais pendentes nem a reprogramação do endividamento público, o Brasil está condenado a que sua taxa de câmbio mostre uma depreciação contínua de sua moeda. No entanto, a Fundação Capital considerou positivos o que chamou de paliativos transitórios que o governo brasileiro impôs para conter a crise econômica, como a criação de um bônus a sete anos por 500 milhões de euros ou a negociação com o Fundo Monetário Internacional para reduzir o piso permitido de reservas internacionais em 2 bilhões de dólares.
Fosse apenas uma opinião isolada, expressa em outro país (ainda que com muitos interesses em relação ao Brasil), seria talvez uma questão descartável. Ocorre que o que a Fundação Capital antecipa é o que se está observando e vivendo no Brasil. Não há como querer comparar números do passado com os atuais para dizer que o País está muito melhor do que antes no que tange à inflação. Quando o plano de estabilização entrou em vigor, houve índices mais elevados. Todavia, era uma época em que a nova política estava sendo implantada e a inflação foi caindo aos poucos. Hoje, o que se percebe é uma elevação que tem efeitos piores do que os índices de há alguns anos. Oito por cento de inflação no ano pode ser um peso pior, para a população, que as taxas que chegaram a 1% ao dia, no passado. Ninguém, em sã consciência, quer nem inflação, nem indexação. Mas para que este retorno não ocorra, será preciso mais do que afirmativas candentes do ministro da Fazenda.





