Quando se pensou que uma pitada de bom senso havia atingido as autoridades brasileiras, com a aceitação da ajuda da ONU para o combate ao fogo que consome 20% do Estado de Roraima, o comandante da 1ª Brigada de Infantaria da Selva, general Luiz Edmundo Carvalho, chefe das operações, resolveu ‘pôr lenha na fogueira’. Disse que a ajuda internacional não é necessária. Um outro oficial foi enfático: ‘De Amazônia entendemos nós!’, bradou, referindo-se ao conhecimento que o Exército brasileiro tem da região.
Outras fontes militares lembraram que o Exército cuida da Amazônia há quase 400 anos e nunca houve incêndio igual. A explicação, segundo essas fontes, é do conhecimento de todos: a baixa umidade da floresta em consequência do fenômeno El Ni¤o. Outra causa também é conhecida: a baixa informação e falta de cultura do povo agricultor pobre que vive na região e pôs fogo no mato rasteiro para ‘preparar’ o plantio. Em resumo, a conjugação do El Ni¤o com a miséria e a ignorância - elas estão sempre juntas - incendiou a floresta.
No entanto, o que menos interessa agora são as causas do desastre e o conhecimento que o Exército brasileiro possa ter da região, por mais completo que seja. Todo esse know-how de nada serviu para evitar os incêndios. O que importa agora é salvar a floresta, ou vamos ficar só com suas cinzas. E para isso nenhuma forma de ajuda deve ser desprezada, ainda mais quando vem de uma organização da mais alta representatividade internacional.
Em favor do Exército brasileiro deve-se dizer que só no dia 19 de março é que foi chamado a participar do combate ao fogo, assumindo então o comando da operação. Mas por isso mesmo, aliás, sua postura em relação à oferta da ONU deveria ser radicalmente outra. Até porque já existe ajuda internacional, da parte da Argentina e da Venezuela. É, portanto, incompreensível que se rejeite a ajuda de uma ONU.
O fenômeno El Ni¤o é um desafio às ciências do clima e do meio ambiente. Até hoje suas causas não são totalmente conhecidas e seus efeitos não são inteiramente previsíveis. Isto significa que muita coisa pode acontecer além do que foi previsto nas estimativas iniciais. O incêndio da floresta amazônica não estava previsto. Esse imponderável é justamente o que deveria levar o general Carvalho e seus demais auxiliares a perceber que se encontram perante um desafio maior do que o usual.
Diante dele e de suas consequências não cabem arroubos nacionalistas. Isto não condiz, inclusive, com a tradição de realismo e objetividade de nosso Exército. O problema é brasileiro, sem dúvida, mas a tragédia ultrapassa as fronteiras nacionais. A Amazônia é patrimônio da humanidade e rejeitar ajuda só contribui para piorar o conceito que temos no exterior em matéria de proteção ao meio ambiente. Além disso, avaliza o desinteresse que o Ibama deu às notícias dos focos de incêndio que surgiram em novembro do ano passado. O Ibama, por sinal, também rejeitou as primeiras ofertas de ajuda da ONU.
O Brasil não está se comportando como um país sério e responsável nesta tragédia, desde o seu início. Países menores e mais atrasados - como o Peru, por exemplo - tentaram se prevenir, há pelo menos um ano, das consequências do El Ni¤o. O Brasil ficou olimpicamente despreocupado, mesmo quando a ONU ofereceu-se em novembro para ajudar a combater os primeiros focos.
É bom dizer que ‘a Amazônia é nossa’, mas não será nada bom ter de dizer que ‘as cinzas são nossas’. Há décadas que o Brasil está deixando a Amazônia se acabar, ou por total despreparo e irresponsabilidade para preservá-la ou por permitir que madeireiras e mineradoras destruam tudo. Jamais houve um incêndio como este, mas a destruição da floresta vem de muito tempo e nada se fez para detê-la.
Neste episódio, o Governo federal não pode se contaminar com nacionalismos de opereta. O general Carvalho e seus auxiliares, com todo respeito, estão equivocados. É preciso salvar a floresta e isto é tudo, para o nosso próprio bem.

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