A instituição do pedágio nas estradas paranaenses que compõem o Anel de Integração começa a se transformar em uma ‘novela’, interminável, com lances que contrariam a mais estrita lógica, criando um suspense que acaba prejudicando a tudo e a todos. O começo, sabe-se, foi a criação em si do pedágio, idéia teoricamente correta mas que se converteu em pesadelo em face de uma implementação que deixou de levar em conta todos os fatores envolvidos na questão. O resultado, previsível, foi a reação de praticamente todos os setores da sociedade, principalmente os diretamente envolvidos, criando-se uma situação complicada, ainda mais porque as eleições estão se aproximando e, como qualquer um poderia prever, o tema acabaria rendendo para a oposição. Diante da avalanche de protestos - e a seção de cartas da Folha é testemunha - e dos prejuízos eleitorais que poderia vir a ter, o governador Jaime Lerner resolveu se antecipar ao seu secretário dos Transportes, que estudava uma solução para o caso, e determinou a redução das tarifas, em quase 50%, para vigorar já a partir de amanhã. Deveria ser o último ato do drama, mas acabou se convertendo, na realidade, em mais um capítulo da ‘novela’, com o anúncio do DNER segundo o qual o ato de reduzir unilateralmente o pedágio é ilegal.
O que vai acontecer, como em todas as novelas, é previsível, em parte. Haverá muitos e muitos outros ‘capítulos’ que devem incluir ações judiciais por parte dos que cobram o pedágio, seguindo-se, naturalmente, atitudes similares de quem paga (e, apesar do que o governador disse, até quem já pagou pode se sentir no direito de ir à Justiça, pedindo a restituição). Espera-se, portanto, uma série de liminares, tão comuns e, como se viu no recente episódio dos sorteios realizados pela TV, durante a Copa - que a Justiça considerou ilegal mas que continuaram ainda assim - possivelmente vão servir apenas para complicar ainda mais as coisas.
Mais grave ainda é que como esta ‘novela’ versa sobre a vida real, e a ação se passa neste universo chamado Brasil, quem deve acabar levando o prejuízo é o usuário, a parte mais fraca envolvida no assunto, com reflexos, naturalmente, para toda a população. A mudança no enredo, porém, também pode acontecer, principalmente diante da nova situação brasileira em que o cidadão começou a se descobrir como personagem ativo no processo. Na verdade, a decisão do governador, determinando a redução nas tarifas do pedágio, decorreu principalmente da reação popular em face da questão. No passado, a coisa seria diferente, como quase sempre foi: os governos enfiando decisões pela goela abaixo do povo que, sem opção, engolia tudo. Hoje, as coisas são diferentes, pelo menos no que tange à reação e ao posicionamento do cidadão.
Naturalmente, a afirmativa do diretor-geral do DNER, Maurício Borges, a respeito do assunto não é final, nem conclusiva. A palavra final caberá à Justiça. O problema, porém, é este: antecipa-se uma longa discussão, com a possibilidade de decisões judiciais diferentes em várias instâncias, tudo isto criando uma situação confusa, envolvendo um dos setores mais sensíveis e importantes da economia, o transporte. A possibilidade de se passar a viver por longo tempo sem saber precisamente qual será a tarifa a ser paga no pedágio representa por si um transtorno. Os problemas que o governador pretendeu evitar, ao determinar a redução de preços, podem retornar, com mais força.
O próximo lance desta complicada questão deve ser dado pelas empresas que cobram o pedágio. É previsível que busquem a Justiça para garantir o que, segundo o DNER, é seu direito. O governador, que determinou a redução e viajou ao exterior, enfrentará em seu retorno uma situação que só existe em função de uma falha original, de concepção e oportunidade.

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