Editorial - A nova multinacional
A nova multinacional
A anunciada fusão entre os dois maiores concorrentes do setor de cervejas e refrigerantes do Brasil, a Brahma e a Antarctica, provocou um natural susto entre os milhões de consumidores, acostumados à verdadeira guerra comercial que ambas vêm travando há décadas para conquistar o consumidor. A explicação dos motivos da união, o desejo de criar uma empresa multinacional capaz de competir nos mercados externos, ao lado da informação segundo a qual, em âmbito interno, vão continuar convivendo as marcas tradicionais das cervejas e refrigerantes, tranquilizou o consumidor, mas deixou no ar uma imensidão de dúvidas. E o fato de a fusão dever ser aprovada pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica, o Cade, deixa claro que a preocupação maior não é a dos consumidores, mas dos concorrentes que, embora pequenos, ocupam um espaço importante, oferecendo empregos, gerando impostos e garantindo ao próprio público opções de consumo, o que é fundamental para uma economia livre como a brasileira.
A fusão chega a ser anunciada como um imperativo dos tempos atuais. Hoje, a concorrência não é mais local, regional ou estadual, mas mundial. E para competir no mercado globalizado é necessário que haja empresas de grande porte, em condições de enfrentar este imenso desafio. São argumentos de peso. Ademais, chega a ser confortante para os brios nacionais saber que existem empresas brasileiras que podem assumir um papel deste porte. A própria mentalidade culturalmente colonizada dos brasileiros só aceita multinacionais de origem externa, especialmente norte-americanas. De repente, eis a feliz percepção de que a Ambev, Companhia de Bebidas das Américas, vai passar a fazer parte daquele rol de grandes empresas (em passado recente apontadas como monstros que queriam engolir as economias dos países mais pobres) que dominam boa parte do comércio no mundo.
Trata-se, sem dúvida, de um passo gigantesco com uma repercussão que vai além da briga pelo consumidor de uma ou outra cerveja ou refrigerante. O surgimento dessa megaempresa de bebidas representa não só uma força brasileira a caminho da conquista do mercado mundial, mas também o fortalecimento interno de concorrentes que, agora, ganham condições para enfrentar também o desafio das pequenas indústrias nacionais ligadas ao setor. Esse é, sem dúvida, o lado sensível da questão e será a maior preocupação do Cade na análise da fusão. Trata-se de levar em conta o perigo de uma situação de controle do mercado que pode ameaçar empresas menores, muitas de caráter regional, que ocupam pequeno, mas importante espaço. Com a força gerada pela fusão, nada obsta a que Brahma e Antarctica iniciem um processo de concorrência pesada, até mesmo no que tange a preços (hoje um dos grandes estimuladores do consumo no País), pondo em risco as empresas menores. Além do efeito negativo sobre indústrias que vão buscando seu espaço, pode haver um resultado pior a longo prazo: uma vez vencida a concorrência, os preços disparam, sem muitas opções.
Há aspectos inegavelmente positivos na fusão, em especial a idéia central difundida sobre a conquista do mercado externo. O Brasil não tem se mostrado muito competente, apesar de todo o seu potencial, em ampliar suas vendas ao exterior, o que é vital para o próprio crescimento econômico. Uma poderosa companhia, como parece ser esta nova AmBev, terá plenas condições para realizar esse trabalho, podendo até abrir caminhos para outras empresas brasileiras. Uma vez definida a questão relativa à sobrevivência das indústrias menores do setor, não parece haver nada que obste esta grande fusão, um passo a mais para que o Brasil entre ativamente nesta tão comentada era da globalização.





