A morte de Figueiredo
A morte do general João Baptista Figueiredo provoca, naturalmente, lembranças. Último presidente militar do Brasil, no período 79/85, encerrando um ciclo iniciado com o movimento de março de 64 que depôs o então presidente João Goulart, Figueiredo marcou sua presença na história política do País com a condução do processo de abertura política, que incluiu a anistia aos adversários do regime militar. É fácil dizer que as circunstâncias internas, o grande movimento popular que explodiu nos últimos meses de seu governo, aliadas às pressões externas tornavam quase que inevitável o fim do regime autoritário, independente da vontade ou disposição do presidente-general que estivesse no poder. Todavia, há a considerar que Figueiredo não apenas mostrou disposição para encaminhar o fim do regime como também evidenciou sensibilidade para conduzi-lo.
A questão básica a respeito, na verdade, reside em outro fator: Figueiredo, como os generais-presidentes que o precederam, encarava o papel presidencial como uma missão militar. Isto faz a diferença, até porque a presidência é um munus político, com nuances bem distintas. O político que chega ao cargo faz, ao longo da vida, uma carreira envolvida com o voto, com os anseios do povo (mesmo que agindo, como muitos, demagogicamente) e tem como objetivo maior de sua atuação precisamente aquele posto. O militar, como membro da coletividade brasileira, pode também aspirar à presidência, mas para chegar a ela tem de, também, como ocorreu na tentativa do marechal Lott, submeter-se ao voto popular.
No movimento totalitário brasileiro, naturalmente, a questão era diferente. Os militares deram o golpe, em 64, quase que convidados por determinados líderes civis. E assumiram o poder para ‘salvar a democracia’, aparentemente ameaçada pelos envolvimentos esquerdistas do presidente João Goulart. Assim, tinham uma missão e tentaram cumpri-la, do modo como sabiam. Para salvar a democracia, acabaram com ela. E a fim de não criar um tipo de caudilho, foram fazendo a alternância do poder, sempre convocando um militar para dar sequência à ‘missão’.
Sem dúvida, o penúltimo presidente do período revolucionário, o general Ernesto Geisel, percebeu que o processo estava se esgotando. E iniciou a retomada da democracia, inclusive com decisões importantes, como a abolição do Ato Institucional nº 5. Era o começo de um trabalho, cuja conclusão foi passada a Figueiredo. Contada assim a história, a impressão é a de que a tarefa era fácil. Basta lembrar, porém, do episódio do Riocentro, uma clara tentativa militar de provocar uma tragédia sem tamanho, para manter, na confusão, o poder que se perdia, para perceber que até internamente o presidente enfrentava dificuldades. Precisava ter disposição para conduzir o processo.
João Baptista Figueiredo, com seus modos talvez abrutalhados, com frases que o deixavam mal face à população, teve coerência em suas atitudes e coragem para realizar aquilo que se propôs. E mesmo quando o ato final não foi o esperado, diante da doença de Tancredo Neves, o que o obrigaria a passar a faixa a José Sarney, apenas agiu de modo grosseiro, sem tentar conturbar o ato final de seu mandato. Foi embora, pediu que o esquecessem e, em certo sentido, foi atendido. E, agora, morreu e tem de ser lembrado, como aquele que permitiu uma transição democrática sem derramento de sangue, após 21 anos de ditadura. Valendo, também, lembrar sua postura em relação à anistia que atingiu tanto os que foram perseguidos pelo regime como os que agiram arbitrariamente ao longo da Revolução, um gesto de grandeza que vale toda uma vida.

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