A Marcha dos 100 Mil
Manifestações e protestos, como a Marcha dos 100 Mil, programada para amanhã em Brasília, são normais e naturais e constituem o exercício pleno da democracia. Os esquerdistas, aliados a sindicatos e outras forças que querem protestar contra a política econômica e social do governo, prometeram reunir cem mil pessoas em frente à Catedral de Brasília, no centro da capital, próxima ao Palácio do Planalto. Diante da agitação que se observa nas fileiras dos partidários do presidente, os organizadores têm o cuidado de reiterar que tudo está sendo organizado para que não aconteçam incidentes e que farão o impossível para evitar a presença de provocadores. Entretanto, as forças opositoras, lideradas pelo Partido dos Trabalhadores (PT), continuam sendo acusadas de querer derrubar o presidente por meio de um ato anticonstitucional e nada democrático. Políticos e até ministros que apóiam o governo acusam igualmente os opositores e, mais especialmente, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente de honra do PT, de golpistas. A admiração de Lula pelo presidente venezuelano, Hugo Chávez, responsável há alguns anos por uma tentativa de golpe em seu país, é apontada por alguns como sintomática.
O momento de crise que o País atravessa, sem dúvida, parece desaconselhar a realização de manifestações deste naipe. Todavia, é certo observar que se o Brasil estivesse vivendo uma situação tranquila, não haveria a necessidade de qualquer tipo de protesto. Mais ainda, sequer existiriam condições para que os partidos de oposição mobilizassem milhares de pessoas. O que produz o clima para a mobilização feita pelos opositores é, naturalmente, a situação geral, a dificuldade que um número crescente de brasileiros sente, a crise como um todo que não consegue ser superada apesar de tantos anos de sacrifício. Ao tentar levar para Brasília pelo menos 100 mil pessoas, procedentes de todo o País, os membros da oposição pretendem mesmo mostrar força e, em certo sentido, acordar o governo.
O risco é que este tipo de ação vá além do protesto democrático. É tênue a linha que separa a manifestação popular de desagrado da confusão decorrente de ações mais ou menos radicais. Os governistas assinalam que este tipo de protesto é perigoso exatamente por ameaçar se converter em um ato sem controle. O discurso de parte da oposição, que propõe a renúncia do presidente e usa como ‘slogan’ frases como ‘Fora FHC’, realmente assusta e tem um cunho que vai além do protesto contra a linha ou atuação de governo. Fernando Henrique Cardoso, com todos os seus equívocos, é o presidente legitimamente reeleito do País. Tem um mandato a cumprir e qualquer tipo de atitude que vise mudar isto é inconstitucional e ilegal. A manifestação popular, que revela insatisfação com os rumos que vêm sendo tomados, marcados pela insegurança e a recessão, é válida. Todavia, como o próprio presidente tem enfatizado, junto do protesto seria interessante que viessem propostas para os problemas.
O clima que está se criando na véspera da marcha é tenso. O jornal ‘Correio Braziliense’ de ontem apresenta um documento emitido supostamente por um setor do PT do Sul do Brasil no qual se propõe o fim do governo, a luta de classes, a revolução política e a construção de um novo poder econômico, diplomático e militar. O presidente de honra do PT, Lula, rebateu a hipótese que esteja sendo preparado um golpe contra FHC. E insistiu em que vai a Brasília para participar de uma simples manifestação de protesto. A democracia brasileira, mesmo que ainda muito recentemente restaurada, tem condições adequadas para enfrentar isto.

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