Levantamento não oficial – nem cientificamente realizado – indicou que a maioria da população de Curitiba aprovou a repressão contra os sem-terra, embora não aceitando, naturalmente, a morte de um dos manifestantes. Apesar de pesquisas como esta não contarem com o aval que normalmente se dá aos trabalhos realizados dentro dos padrões exigidos, é possível considerar que a parcela maior da população, tanto em Curitiba quanto em qualquer outro ponto do País, está cansada e, principalmente, assustada diante da agitação. A maioria deseja atitudes que restaurem um clima de tranquilidade, o único que pode garantir mais segurança.
No Brasil, como em praticamente todo o mundo, existe uma ampla parcela da população que quer apenas paz para poder viver. Nos últimos meses da luta que sustentou para tentar salvar seu mandato, o então presidente norte-americano Richard Nixon tentou despertar esta parcela, que chamou de ‘grande maioria silenciosa’, pedindo seu apoio contra os que o afrontavam. Ou porque os abusos de Watergate foram considerados excessivos ou por apatia, a citada maioria continuou silenciosa e Nixon acabou sendo apeado do poder, obrigado a renunciar, para não ser deposto e preso.
No Brasil, sem dúvida, esta ‘maioria silenciosa’ acompanha com preocupação as manifestações dos sem-terra e a repressão em alguns Estados, assim como também vê com apreensão a greve dos caminhoneiros que começa a fazer sentir seus efeitos, como a falta de combustíveis em muitos pontos do País. Ainda assim, praticamente não se manifesta, mantendo uma neutralidade, que não é a melhor alternativa, aparentando mais a solução do avestruz, aquela ave que esconde a cabeça na areia diante do perigo.
Esta ‘maioria silenciosa’, porém, pode fazer a diferença, na medida em que desperte para a necessidade de uma tomada de posição diante dos acontecimentos, o que implica também em se tornar mais ativa na exigência dos direitos de cidadania. Alheando-se do processo, seguindo a filosofia do Jeca Tatu, para quem não valia a pena tentar qualquer coisa, esta parcela importante da população acaba se tornando paciente de um processo, mesmo que discorde dele. E vai sofrer efeitos, por se deixar ficar à margem, acabando até como vítima de sua própria inação.
As grandes mudanças que aconteceram no Brasil nos últimos anos, vale repetir, decorreram principalmente do despertar da consciência de cidadania, que produziu condições para transformações concretas. Observou-se isto quando do lançamento do Plano Cruzado, ocasião em que a parcela silenciosa resolveu se manifestar e participar. O programa se frustrou, por culpa dos políticos, mas a idéia se manteve. E quando surgiu um plano bem-feito – o programa de estabilização lançado no governo Itamar Franco –, a grande base para o sucesso daquela iniciativa foi, outra vez, a participação maior da população.
O quadro atual é algo diferente da que se vivenciou na luta a favor dos programas econômicos. Há agora uma efervescência no campo social, com agitações e choques. É, portanto, o momento adequado para que esta ‘grande maioria silenciosa’ perceba que precisa também se posicionar, até como meio de garantir as vitórias já obtidas. Não se pode, inclusive, deixar de observar que na falta de uma postura concreta da maioria diante desta efervescência, os governantes tendem a se desviar das reais necessidades da população e uma ‘minoria atuante’, mesmo defendendo bandeiras legítimas, pode deflagrar um processo perigoso de desafio, com risco de um confronto prejudicial para todos os brasileiros.

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