O homem que assumiu a presidência do Brasil em um momento de tremenda crise, que enfrentou a descrença quase generalizada, que sofreu com as dificuldades e que conseguiu o que parecia quase impossível, formular, preparar, lançar e fazer funcionar um programa de estabilização da economia, não poderia (ou talvez fosse mais adequado escrever ‘não deveria’, porque poder ele pode, já que o fez) jogar a bomba que lançou sobre o País, com a decretação da moratória na dívida do Estado que administra. O sr. Itamar Franco, conhecido apenas regionalmente mesmo quando participante da chapa de Fernando Collor, projetado de modo inesperado - para ele e para todos - com o escândalo que derrubou o então presidente, tornou-se credor da admiração e do respeito dos brasileiros pelo trabalho que realizou em circunstâncias tão duras. Recebido com muitas dúvidas, comparado, negativamente, a José Sarney - também herdeiro inesperado da presidência, com a morte de Tancredo Neves - o presidente Itamar Franco acabou se convertendo em uma verdadeira e agradável surpresa, conseguindo o que parecia impossível, acabar com a tenebrosa escalada da inflação através de um programa muito bem construído. Se se considera, e com razão, o sr. Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda na época, o condutor do plano, é certo que Itamar foi o grande artífice de tudo, aquele que lançou as bases e deu condições para sua concretização vitoriosa.
Exatamente por isto, o sr. Itamar Franco sabe, talvez como nenhum outro, que o programa exige sacrifícios de todos, inclusive dos governos estaduais. O imenso déficit público brasileiro não existe, apenas, em função dos descalabros da União, mas também decorre dos abusos e, sem dúvida, da irresponsabilidade de governadores e prefeitos. Quando lançou o programa, o sr. Itamar Franco foi duro com os governadores, o que era natural e necessário até. E mais do que ninguém ele sabia que sem uma correta administração dos débitos dos governos de Estado e das prefeituras, o programa poderia soçobrar, também.
Sabe-se que o sr. Itamar Franco está, agora, do outro lado: é governador. E, para piorar, recebeu a triste herança de dívidas do antecessor. Também não se desconhece que o ex-presidente está magoado com o seu sucessor (a quem ajudou a eleger há quatro anos). Entretanto, por mais que se reconheçam os motivos, a atitude tomada pelo atual governador de Minas cria um problema para o País. E o mais grave, ainda, é que o sr. Itamar Franco, mais do que qualquer outro, sabe disto. Na verdade, não agiu sem este conhecimento. E isto, sem dúvida, constitui uma agravante. Mesmo sem deixar de reconhecer o excepcional trabalho que o atual governador de Minas fez, na presidência que caiu em seu colo, de modo inesperado, é mister reconhecer que o que fez agora representa um fato negativo e desabonador, capaz de comprometer o sacrifício que os brasileiros vêm fazendo todos estes anos.
Em sua defesa, o governador de Minas afirma que pretende, mais que tudo, pôr em discussão a própria estrutura federativa do país. Tem razão, em parte. A Federação brasileira não existe, na plenitude. Os estados não têm a força devida. Nem os municípios. A União ainda detém muito poder. É fora de dúvida, porém, que não será com medidas arbitrárias e perigosas, como a moratória que decretou, que o sr. Itamar Franco obterá mudanças neste quadro, ainda que necessárias. O que se reclama neste momento, tanto do governador de Minas como dos de outros Estados, é que corrijam os erros, administrem, façam como ele fez quando na presidência: busquem soluções, sem deixar que mágoas pessoais turbem o seu entendimento. E, o que é pior, prejudiquem o Brasil.

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