Editorial - A luta pela dignidade
Depois da viagem a Cuba, João Paulo II acaba de ir a outro país que vive sob a opressão de uma ditadura, a Nigéria, mais populosa nação africana. E lá, como em outras tantas oportunidades, quando visitou regimes totalitários, o Papa se parece a um cordeiro enviado para o meio dos lobos, conforme a expressão que Jesus usou, quando enviou seus discípulos a pregar. No entanto, sob a pele do cordeiro existe um leão. Seu destemor e sua defesa da liberdade e da dignidade humana lhe dão um lugar especial na história deste século.
Idoso, com a saúde abalada pela doença e sofrendo as consequências de um grave atentado que o levou a fazer várias cirurgias, João Paulo II tem mostrado uma fibra impressionante e uma coragem que transcende as normas da diplomacia. Escudado, sem dúvida, no Evangelho que prega, tira de sua fé a coragem para enfrentar os maiores desafios.
E o tem feito com resultados importantes. Sua visita a Cuba chamou a atenção para a injustiça do bloqueio norte-americano, que submete o povo cubano a duras dificuldades e o obriga a viver praticamente isolado do mundo. E após essa visita, recentemente o governo dos Estados Unidos abriu a porta para uma proposta de distensão nas relações entre os dois países. Nos poucos dias em que esteve na ilha caribenha, o Papa fez mais pela paz do que os 30 anos de pressão econômica e psicológica do governo dos Estados Unidos para obrigar Cuba a se reaproximar do Ocidente.
A libertação de presos políticos em Cuba, também na sequência de sua visita, foi o começo de um processo que pode levar a uma transformação ainda maior. Foi assim, vale rememorar, na Europa Oriental. Durante 40 anos, o equilíbrio do terror nuclear produziu dois dificílimos tratados de redução de arsenais atômicos e não evitou duas sangrentas e longas guerras na Ásia e dois violentos massacres na Europa Central, nas mesmas décadas em que ocorreram as duas guerras mencionadas. À guerra da Coréia seguiu-se a invasão da Polônia e à guerra do Vietnã, a invasão da Tchecoslováquia, em 1968. Mas em muito menos tempo, no final da década de 80, a ação firme do Papa foi decisiva para a libertação da Polônia e dos demais países sob jugo soviético na Europa Oriental.
O que os exércitos não conseguiram, um padre da Polônia está fazendo totalmente desarmado, contando somente com a competência da diplomacia do Vaticano e com seu carisma pessoal.
Assim como os cubanos, os nigerianos vão sentir, gradativamente, os efeitos de sua presença corajosa e firme. No limiar do terceiro milênio, o mundo ainda vive situações inaceitáveis. Ao lado de países bastante desenvolvidos, existem outros - como a Nigéria e um grande número de nações africanas, asiáticas e latino-americanas - que vivem sob a opressão da miséria, da fome, do abandono, cujas causas estão dentro e fora dos respectivos países. Estão nas injustiças do sistema econômico e político interno, ao mesmo tempo em que são exploradas no comércio com as nações mais fortes.
Os massacres que ocorrem em países africanos, como as perseguições ainda presentes em partes da antiga Iugoslávia, mostram a face de um planeta que obteve grande progresso científico e tecnológico, mas mantém em condições subumanas quase a metade da população do planeta.
Neste contexto, a presença de João Paulo II na África Negra é mais que uma esperança. As preocupações manifestadas pelo Papa vão além dos interesses econômicos que norteiam as nações e muitos povos. As consequências negativas da globalização exigem ações corretivas que os próprios países interessados devem lutar por realizar ou promover. Não é esse o trabalho do Papa, mas ele pode atuar como um amplificador dos anseios dos mais fracos - e tem feito muito por isso, em todos os quadrantes da Terra.
Mais que palavras, neste fim de século a humanidade precisa de posturas firmes, ousadas e generosas, das quais nos dá exemplos sem cessar este alquebrado papa João Paulo II, fraco na saúde mas forte e vivíssimo no olhar e na determinação de transformar o mundo.





