A greve dos caminhoneiros, ocorrida na semana passada, provocou uma intensa reação, por motivos até compreensíveis: afinal, praticamente tudo no Brasil se transporta em caminhões, de tal modo que uma paralisação dos motoristas de carga ameaça o abastecimento nas cidades. Foi o que se percebeu: em poucos dias de greve, houve falta de combustíveis em vários centros urbanos, acontecendo também o desabastecimento em setores de alimentação. Se a greve não tivesse sido suspensa pelos caminhoneiros, havia até a ameaça de intervenção mais dura das autoridades, tendo o Governo Federal chegado a acenar com o uso do Exército no sentido de abrir as estradas e permitir o tráfego de caminhões. Felizmente, nada disto foi necessário e a situação voltou à normalidade. Agora, no Paraná, uma nova greve se desenha: os professores iniciaram paralisação parcial e prometem uma greve total dentro de alguns dias caso suas reivindicações não sejam atendidas. Até agora, as principais reações à ameaça dos mestres partem de pais de alunos preocupados com a possibilidade de haver corte nas férias escolares. Fora disto, a reação ante o movimento é infinitamente inferior à observada face à greve dos motoristas de caminhão.
Sem desmerecer a importância dos caminhoneiros, nem suas reais e justas reivindicações, é interessante observar a diferença que se percebe na própria reação ante dois movimentos grevistas. Constitui, sem dúvida, um poderoso indicativo da importância que se dá ao papel desempenhado pelos professores na vida da população. É assustador perceber que a grande preocupação com o movimento está ligada às férias. Mas é também elucidativo. E reclama, sem qualquer dúvida, um posicionamento mais sério da coletividade diante não só da paralisação que se ameaça, mas da forma como se encara a situação do magistério e do desamparo a que é relegada a categoria, cuja missão maior é preparar as novas gerações do Brasil para o futuro (que, como lembram muitos, já chegou).
Durante as comemorações dos 500 Anos do Descobrimento, houve um discurso muito forte relativo à importância da educação para o desenvolvimento do país. Como quase tudo no Brasil, foi apenas discurso. A falta de atenção aos reclamos e necessidades dos professores, o modo como se trata a categoria, a começar por salários aviltantes e por condições precárias para o exercício de sua função, que é um verdadeiro apostolado, são por si um atestado da realidade. Não por outro motivo, os professores, só lembrados no seu dia, 15 de outubro, vêm repetindo há décadas que nada têm a comemorar. Nem no 15 de outubro, nem em época nenhuma, face ao descaso que se observa diante das reivindicações mais que justas da categoria.
As autoridades estaduais precisam voltar suas atenções para a categoria, com a maior urgência. O ideal, aliás, seria que a greve geral já anunciada sequer fosse deflagrada. Mas isto, naturalmente, não depende dos professores e sim dos governantes, que precisam, se necessário, mudar suas prioridades. Deixar a educação de lado, o que fica muito evidente diante da situação dos professores, é um verdadeiro crime contra a cidadania. E representa, ademais, uma lamentável demonstração sobre os propósitos de um Governo.
Vitais para a formação das novas gerações, para a criação de bases sólidas com vistas ao futuro, os professores constituem a linha de frente na grande batalha pelo desenvolvimento nacional. Relegá-los, abandoná-los à própria sorte, não lhes oferecer condições dignas de trabalho é quase que um atestado de falta de qualquer senso de civilidade por parte dos responsáveis.

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