A luta contra o narcotráfico
É fora de dúvida que jamais se realizou no Brasil um trabalho de profundidade a respeito do narcotráfico nos moldes como vem sendo executado pela CPI da Câmara Federal. O crime organizado existe há tempos, o tráfico vem crescendo de modo constante, notadamente a partir dos anos 60, mas, como quase sempre acontece, a lei anda atrasada em relação à delinquência. Assim, embora o Brasil também esteja hoje não só envolvido, mas enfrentando este crescimento do narcotráfico e do crime organizado como um todo, até agora não se havia realizado um trabalho como este, buscando não só os pequenos traficantes mas indo mais fundo, tentando identificar, prender e punir os principais responsáveis pelo crime. Pode-se considerar que contribui para isto a mudança de mentalidade que vem ocorrendo no país nos anos recentes. O crescimento da consciência de cidadania traz consigo idéias sérias sobre a impunidade e forma uma opinião mais exigente a respeito das coisas certas e erradas. Adicionalmente, a evolução da percepção sobre o perigo que a sociedade enfrenta diante do crescimento da criminalidade também contribui para que exista um anteparo real a um trabalho sério visando, pelo menos, reduzir a força do crime organizado entre nós.
O que se está acompanhando na CPI do Narcotráfico é um trabalho sério e corajoso e que tem estimulado outros setores à ação. Tem também provocado certo ciúme, que pode ser percebido pela sugestão do presidente do Senado, senador Antônio Carlos Magalhães, que deu a idéia da criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito Mista (Senado e Câmara) para investigar o narcotráfico. Com habilidade diplomática, o presidente da Câmara, Michel Temer, assinalou não descartar a possibilidade de se realizar este trabalho, mas ressaltou que este não é o melhor momento para isso porque a CPI que está em funcionamento na Câmara está trabalhando bem. Ao lado desta idéia do presidente do Senado, há também a proposta do ministro da Justiça sobre um trabalho conjunto dos Três Poderes contra o tráfico. E agora existe até o apoio anunciado do presidente da República para a realização de um esforço efetivo no combate ao narcotráfico. Complementarmente, os órgãos incumbidos da luta contra o tráfico – a Polícia Federal, primordialmente, além do Ministério Público que tem função mais abrangente na defesa da coletividade – têm evidenciado uma disposição imensa no sentido de realizar seu trabalho.
O momento, na verdade, é de se insistir não apenas na continuidade do trabalho da CPI, mas na adoção de medidas objetivas para o combate sem quartel ao crime. Muitas idéias têm sido aventadas, observa-se inclusive o interesse de alguns em se aproveitar dos benefícios positivos da investigação e o que se necessita agora é de uma renovada disposição para reverter mesmo um quadro que ainda é negativo para a lei. O que é possível observar, diante das revelações que vêm surgindo, é que o narcotráfico já atingiu proporções gigantescas também entre nós. Também por isto é que se deve investir cada vez mais na luta contra o crime, dando condições à CPI para que possa aprofundar suas investigações e, ao mesmo tempo, fornecendo às autoridades responsáveis maior amparo neste trabalho.
O que é vital neste caso é perceber que a parte mais importante – e sem dúvida a que representa maior perigo –, é a que deve ser desenvolvida pela Polícia Federal. Anunciou-se a autorização para contratação de mais pessoal. É uma etapa. Há que pensar, porém, em aparelhar cada vez mais a PF, dar a todos os que militam ali apoio e orientação, produzir, enfim, condições para que realizem o trabalho básico que devem efetuar.

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