A luta contra as drogas
O ministro brasileiro da Justiça Renan Calheiros, em artigo publicado ontem nesta Folha, informa sobre sua participação em conclaves internacionais destinados ao combate ao crime organizado transnacional, adiantando que deixou com o diretor-executivo da Agência das Nações Unidas para Controle de Drogas e Prevenção de Crimes, dois projetos brasileiros como contribuição à luta mundial neste campo. As propostas tratam da proibição da venda de armas de fogo e de uma repressão à corrupção internacional.
O mundo civilizado já despertou para o terrível flagelo do crime organizado, que representa atualmente um poder multinacional tremendo. Movimentando milhões de dólares anualmente, usando da violência onde a corrupção não resolve, sem freios legais, éticos ou morais, sem fronteiras, o crime organizado é o desafio mais sério que a sociedade humana enfrenta neste final de século. E até agora não se observam avanços muito significativos nesta luta, apesar das reuniões que se realizam por todos os continentes e dos alertas cada vez mais sérios a respeito. A consciência mundial já despertou, todavia ainda não se percebe um tipo de atitude concreta para enfrentar a questão. Teorias como a que o Brasil lançou, relativas à proibição da venda de armas, não representam uma solução real, inclusive porque - e a própria situação o deixa claro - proibir alguma coisa não resolve nada. Afinal, o tráfico de drogas é proibido no mundo todo, assim como todas as outras práticas ilegais.
A propósito da sugestão brasileira, nos Estados Unidos - país que tem possivelmente o maior índice armas/habitantes do mundo - também há um esforço nesse sentido. Há um mês, o presidente Bill Clinton fez novo apelo para um controle mais rígido das armas de fogo e acusou o Congresso de ter ‘‘perdido o contato’’ com os norte-americanos no que diz respeito a este tema. ‘‘Temos que fazer tudo o que podemos para manter as armas de fogo fora do alcance dos criminosos e das crianças’’, disse Clinton em entrevista a uma rede de TV. Depois da chacina do colégio de Littletown (Colorado), na qual dois alunos mataram treze pessoas antes de se suicidarem, em 20 de abril passado, o Senado votou várias medidas para fortalecer o controle das armas de fogo, incluindo uma fiscalização mais rígida junto às lojas em que são vendidas. Até agora, porém, não houve muito avanço na questão, até porque ponderável número de congressistas, refletindo a própria mentalidade de grande parte da população, é contra qualquer medida de restrição à liberdade de compra de armas. Ter armas naquele país faz parte até da cultura nacional. E acreditar que algum tipo de proibição legal vá manter as armas fora do alcance dos criminosos, como enfatiza o presidente dos EUA, é, no mínimo, uma ilusão.
A verdade é que o mundo não sabe ainda o que fazer nesta luta desvantajosa. A violência e as drogas abrem caminhos por toda parte. A China, o país de maior população no mundo, está executando traficantes. O crescimento do total de viciados decuplicou ali nos últimos 10 anos. Segundo o ministro da Segurança Pública, a China se transformou ao mesmo tempo em ponto de tráfico internacional de droga e um país consumidor. E mesmo uma legislação férrea não está sequer ajudando a conter o avanço da droga.
É só um caso. Mas reflete o que está ocorrendo no planeta. E deixa claro que sem uma mudança de atitudes que envolve mais educação, melhorias sociais, ao lado de uma política mundial comum contra o crime, o desafio não será vencido.

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