Em meio à fome que atinge seu povo, o governo da Coréia do Norte deu a entender esta semana que reiniciará seu programa nuclear, atualmente congelado, se os Estados Unidos não levantarem sanções contra o país. Segundo o porta-voz do ministério das Relações Exteriores, citado pela agência oficial KCNA, a Coréia do Norte ‘‘escolherá seu próprio caminho’’, a menos que Washington respeite o acordo de 94. Naquele ano, a Coréia do Norte aceitou interromper seu programa atômico em troca de uma ajuda em petróleo e de uma promessa norte-americana de construção de duas centrais nucleares.
A estupidez parece encontrar um número crescente de seguidores. Bastou que a Índia resolvesse mostrar suas ‘garras atômicas’, realizando experiências com artefatos nucleares, para que o Paquistão, inimigo declarado dos indianos, fizesse o mesmo, abrindo de novo o campo para a retomada deste tipo de teste. Agora, é a Coréia do Norte, país talvez ainda mais pobre que Índia e Paquistão, com enormes problemas alimentares, que ao invés de tentar resolver a situação do seu povo resolve investir na indústria da morte, anunciando este tipo de decisão como se fosse uma coisa positiva.
Aparentemente, estas demonstrações de ignorância não são privilégio dos indianos, paquistaneses ou norte-coreanos. Com efeito, ao ser lançado candidato à presidência da República, pela terceira vez, o até agora hilário Enéas resolve apresentar em sua plataforma a grande idéia: se eleito, garante, vai construir a bomba atômica brasileira. E explica que só assim o Brasil passará a ser respeitado pelo mundo.
As possibilidades de eleição daquele candidato são consideradas quase nulas, o que tornaria suas idéias e programas sem nenhuma validade. Entretanto, esta idéia da bomba mostra como o eleitorado pode ser ludibriado por malucos que oferecem ‘prestígio’ ao invés de uma vida melhor. As cenas vistas em cidades do Paquistão e da Índia, com populares vibrando diante das notícias das experiências atômicas realizadas pelos respectivos países, são bem indicadoras desta manipulação. São dois países ainda mais miseráveis que o Brasil, com problemas imensos, mas que desviam milhões para alimentar o sonho paranóico de líderes aparentemente desligados da realidade.
Mais que lamentável, é preocupante perceber o reinício desta tendência em países miseráveis e com população faminta. As esperanças surgidas ao fim da guerra fria, com o esboroamento da União Soviética, começam a diminuir. A possibilidade de se investir em tratores e não em canhões, em medicamentos e não em armas, em vida e não na morte parece se reduzir. É certo que mesmo com o fim do conflito ocidente-oriente as guerras continuaram em muitos pontos do planeta, ao mesmo tempo em que surgiam outras, como na antiga Iugoslávia, que se fragmentou em vários países. Todavia, tinha pelo menos ficado para trás o pesadelo da destruição total do mundo, que poderia acontecer a qualquer momento naqueles loucos anos do equilíbrio do terror. A loucura que parecia estar superada volta de modo assustador. E pelo visto não se restringe a outros países ou continentes, mas chega até ao Brasil. Ainda que aparentemente sem base, o simples enunciado da proposta do sr. Enéas assusta por mostrar que mesmo entre nós há quem tenha idéias tão absurdas.

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