Editorial - A lição do Nobel
Nesta hora em que o economês predomina no epicentro do vendaval da crise globalizada, e é usado com predileção pelos tecnocratas, apesar de sob a ótica popular só servir para complicar a vida dos povos, chega a causar surpresa a decisão da Academia Real de Ciências da Suécia de conferir o Prêmio Nobel de Economia para o indiano Amartya Sen.
O primeiro economista asiático a receber o destacado prêmio foi galardoado por sua contribuição à análise do bem-estar econômico e por sua análise do desenvolvimento, segundo o comunicado oficial a respeito do prêmio. Amartya Sen, conforme a Academia sueca, tem contribuído para restaurar a dimensão ética do debate econômico e social, graças à utilização combinada dos instrumentos econômicos e filosóficos.
Nascido em Bengala, em 1933, o Nobel da Economia de 98 é professor do Trinity College de Cambridge (Grã-Bretanha) e autor do livro Pobreza e fome, publicado em 1981. Na obra, ele estabelece que uma compreensão da fome pressupõe uma análise dos impactos dos fatores sócio-econômicos e, por conseguinte, sobre as possibilidades de agir de cada indivíduo. O novo laureado assentou as bases teóricas que permitem comparar diferentes modos de distribuição do bem-estar social e definir novos instrumentos para medir a pobreza (...), graças ao estudo da fome real, o que amplia nossa compreensão dos fenômenos econômicos em relação à origem da fome e da pobreza, frisa a Academia.
Ao estudar as zonas cinzas, onde se interpenetram três disciplinas diferentes - economia, ciência política e filosofia - Sen estabeleceu diversos indicadores de pobreza. O índice sintético de desenvolvimento humano utilizado pelas Nações Unidas foi elaborado a partir do pensamento do economista indiano. Também humanista, Sen consegue aprofundar o conhecimento das condições necessárias para que os valores das pessoas individuais se integrem em uma decisão coletiva e para que as regras de tomada de decisões coletivas sejam compatíveis com o direito das pessoas. Uma personalidade sem dúvida muito diferente em comparação com a dos laureados do ano passado, os americanos Robert Merton, da Universidade de Havard, e Miron Scholes, da Universidade de Stanford, por seu método de avaliação dos instrumentos financeiros derivados, evidenciando claramente uma nova ótica da Academia em relação à questão econômica.
Existe, sem dúvida, uma lição nesta escolha. É quase que uma resposta diante da quase desumanidade com que se tenta tratar as coisas da economia, como se ela fosse uma ciência desvinculada da realidade e da vida humana. A visão do economista indiano Amartya Sen deixa evidente aquela que deveria ser a real preocupação dos técnicos, a situação humana. Tem-se nesta eleição a visão sobre a importância que a economia, e por extensão os economistas, pode exercer nesta grande mudança que o mundo vivencia.
A dimensão humana dos problemas que quase todos os países do mundo enfrentam não pode ser dissociada das decisões e teorias econômicas que dão a impressão de dominar o planeta. A preocupação básica evidenciada pelo Nobel de Economia de 1998 representa a grande lição no sentido de se conceituar os problemas e buscar soluções, tendo em vista o destinatário de todas as decisões que os governos e as empresas vêm adotando, o ser humano. Ao eleger Amartya Sen a Academia Real de Ciências da Suécia dá um recado claro sobre a finalidade da economia na vida da civilização humana neste fim de século 20.





