Editorial - A lição de Tiradentes


Por motivos facilmente compreensíveis, Tiradentes não foi considerado um herói nos tempos do Império, embora haja informações sobre uma visita de D. Pedro I a dona Dorotéia, a musa de Tomás Antônio Gonzaga, um dos inconfidentes. Durante a ditadura de Getúlio Vargas, o mártir da Inconfidência também não mereceu maiores homenagens e só após a redemocratização de 45 é que a data do enforcamento do alferes começou a fazer parte dos feriados nacionais. Posteriormente, Tiradentes foi alçado à condição de patrono cívico do Brasil e seu sacrifício, assim como o dos seus companheiros de Inconfidência, começou a ser reverenciado como deveria ter sido sempre.
Como, porém, o Brasil não se revela um país de memória, o reconhecimento a Tiradentes e ao seu sacrifício chega a ser surpreendente. Infelizmente, nem mesmo os heróis esportivos são muito lembrados, faltando aos brasileiros a percepção da importância de não apenas rememorar, mas honrar a memória dos que, de algum modo, lutaram pela coletividade ao longo da História. Somos um país com poucos heróis explícitos e reconhecidos. E mesmo estes não são muito exaltados. Tiradentes chega a ser até uma exceção em um quadro que parece quase vazio. Afinal, parece inacreditável que em quase três séculos de existência - Joaquim José da Silva Xavier foi executado, como se sabe, a 21 de abril de 1792 - a História registre com destaque apenas um movimento libertário, a Inconfidência. A impressão é a de que em quase trezentos anos a idéia de liberdade e independência não passou pela cabeça de quase ninguém.
Para completar um quadro deste naipe, quando a Independência chegou ela aconteceu pelas mãos do príncipe regente, herdeiro do trono português, que acabaria sendo, mesmo sem a proclamação de 7 de setembro, o governante do Brasil. Uma vez mais, a impressão de que a população pouco ou nada acrescentou a um fato vital na História. Claro, sabe-se que houve outros elementos participando da saga da Independência, assim como é sabido que Portugal, por motivos justificados dentro do espírito colonialista, não ofereceu qualquer condição para que houvesse idéias libertárias ou nacionalistas na Colônia. Foi só com a vinda de D. João VI que o Brasil se abriu aos outros povos, surgiram escolas e imprensa e, enfim, começou a nascer o germe de uma nacionalidade.
Ocorre que houve outros sonhadores que ousaram pensar na liberdade, antes de Pedro I, e em uma forma de governo diferente, durante o Império. Pouco ou nada se comenta a respeito. Sob certo aspecto, persiste a impressão de que as pessoas não participam sequer de sua própria História. A Inconfidência, mesmo, dá a idéia de um movimento limitado a algumas pessoas. Na Independência, tirando D. Pedro houve alguns coadjuvantes. Em relação à Abolição, muitos a queriam, mas no fim a imagem que ficou foi a de uma proclamação imperial da princesa regente. Também a República, embora houvesse muitos adeptos dela, surgiu com a proclamação de um marechal. Depois disto, houve revoluções, golpes, ditaduras. Mas em tudo isto, o povo figurava sempre como elemento passivo.
Avultou, porém, nas últimas décadas, a partir principalmente do início da reação à ditadura implantada em 64, uma nova mentalidade. E este povo que deu sempre a impressão de passivo em face do próprio destino, assumiu com vontade, pelo voto e pela manifestação nas ruas e praças, o caminho que buscava de afirmação e reconhecimento de sua potencialidade. E hoje busca, com confiança, os rumos de sua plena realização.

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