Os sul-coreanos fizeram nas eleições de quinta-feira exatamente o que o povo de qualquer país, nas mesmas circunstâncias, faria: situação de crise, bolsas desabando, empresas quebrando, desemprego, socorro externo, vergonha nacional em qualquer país que se preze, ainda mais no Oriente. Tudo isso em ano eleitoral, já em cima da eleição, com os preços em disparada. O eleitor quer mudar radicalmente a cena e vota na oposição. Não foi uma vitória fácil para o candidato oposicionista na Coréia do Sul, que não abriu mais do que 1,8% de vantagem sobre o candidato governista, mas a vontade popular se impôs. O eleitor sempre pensa que se as coisas estão ruins é porque o governo foi ou é incompetente.
A eleição sul-coreana tem lições para o Brasil. Já tivemos duas eleições na história recente do País em que o povo votou na oposição porque viu incompetência na situação. Foi com Jânio Quadros, nos anos 60, e com Fernando Collor, nos 90. Hoje, seria como se o presidente Fernando Henrique Cardoso perdesse a reeleição para Luis Inácio Lula da Silva ou Leonel Brizola, por grande insatisfação do eleitorado com os rumos da economia e da política nacional.
É uma hipótese remota? Evidentemente que não. A economia brasileira é vulnerável a crises longínquas porque o atual governo deixou para depois o que deveria ter feito logo no início de seu mandato. Toda a imprensa e toda a população são testemunhas ativas e críticas desta falha até hoje inexplicada e indesculpável. É uma falha que não aparece nas pesquisas de opinião e talvez por isso não tenha chamado a atenção nem do presidente nem de sua equipe. As pesquisas só têm refletido o confortável sucesso do Plano Real em derrubar a inflação.
Mas nem só de inflação baixa vive o eleitorado, que também quer emprego, salário, saúde, habitação, segurança e, particularmente, uma dura e exemplar conduta dos governos diante da corrupção, notadamente nos órgãos públicos e nas bancadas de apoio parlamentar. O eleitorado também não perdoa a recessão como meio de estabilização da moeda. Ela pode ser um mal necessário, como prescrevem os livros de economia, mas os governos têm a obrigação cívica e política de abrir alternativas para a economia respirar. Manter o nível de emprego de antes é a primeira condição.
Com toda certeza, o impacto da eleição de um candidato de oposição na Coréia do Sul deve ser absorvido em pouco tempo, até porque - e esta é uma das muitas vantagens da democracia - o novo presidente Kim Dae-jung estará comprometido com as soluções que propôs em sua campanha e para as quais foi eleito. Sua já manifesta preocupação em tranquilizar o mercado local e os investidores externos é positiva e alentadora.
Mas terá de fazer muito mais e desenvolver um trabalho profundo e inovador para repor seu país na trilha do desenvolvimento econômico e social. Do contrário, ele que é oposição hoje pode ser democraticamente apeado do poder pela oposição de amanhã. Este é o desafio da política e o destino dos políticos nas democracias sérias. O eleitor é o verdadeiro detentor do poder nas democracias e mostra sua força no momento mágico do voto.
Às vésperas de um complicado ano eleitoral, os governantes brasileiros devem ficar atentos às lições que vêm da Ásia, na economia e na política. A crise do Oriente está longe de acabar e quanto antes o Brasil tomar providências para se safar, melhor para todos os brasileiros e todos os sonhos do presidente.

mockup