Algumas entidades celebram hoje o aniversário da lei que determinou a Abolição da escravatura no Brasil. Outras preferem não comemorar, havendo também os que entendem que o dia que melhor representa a luta dos negros pela liberdade é a data evocativa de Zumbi dos Palmares, que lutou contra a escravidão. Com efeito, é importante esta ótica porque destaca o lado positivo da luta dos escravos, que através do sacrifício de Zumbi deixaram evidente a disposição de buscar a liberdade por seus próprios meios. O fato de se ter apresentado, durante muito tempo, a Abolição como um presente do Poder (no caso, a Princesa Isabel, que acabou inclusive recebendo o nome de Redentora), também faz com que o 13 de maio seja desconsiderado por muitos.
Entretanto, ainda mais neste tempo em que se tenta rediscutir a História – o que começou com as comemorações dos 500 anos do Descobrimento –, é importante reavaliar não a lei em si, mas as circunstâncias que a cercaram para perceber que existe uma outra realidade por traz dela. Não se pode discutir que foi a Princesa Isabel quem sancionou a chamada Lei Áurea. Isto aconteceu por uma questão de circunstância. Dona Isabel, como regente, cumpriu seu dever constitucional. Entretanto, não é dela a autoria da lei, não partiu da Monarquia a decisão a respeito. Importa, até como um resgate justo da História, rememorar que Pedro I, que proclamou a Independência, era favorável à Abolição da escravatura. Antes dele, os Inconfidentes também tinham em seu projeto a intenção de acabar com a escravidão ao tempo em que conseguissem proclamar a Independência. Mas a Inconfidência não deu certo e Pedro I acabou se curvando a outros interesses, mantendo a escravidão.
É inquestionável, porém, que a rejeição à escravatura existiu no Brasil antes até da Independência, cresceu ao longo dos anos e terminou não porque a Princesa tenha assinado uma lei, mas porque aquela lei foi, antes, aprovada pelo Parlamento brasileiro, marcando o final de uma luta difícil para os negros. A rejeição foi se desenvolvendo na medida em que os negros iam conquistando a liberdade pelos mais diferentes meios, com uma participação muito grande também dos brancos. E aqui está talvez um fato que raramente tem sido destacado, mas que deveria ser posto como fundamental para se celebrar de modo condigno a data: a luta pela Abolição não foi apenas dos escravos ou ex-escravos, mas de todos quantos percebiam que se tratava de resgatar a dignidade do ser humano, independente de raça.
A Abolição da escravatura, no dia 13 de maio de 1888, não é de fato apenas uma festa para a raça negra, para os que ainda eram escravos ou para os que já haviam deixado de ser por causa das leis anteriores ou à alforria, mas para a raça humana, o fim de uma idéia absurda que separa o homem em função da cor da pele. Nunca será demais repetir que o Brasil foi o último dos países do continente a acabar com a escravidão, o que representa mais uma nódoa em nossa História. Ainda assim, e até mesmo por isto, é importante rememorar a data e até redescobri-la em seu sentido mais elevado por celebrar o dia em que se deixou de marcar o ser humano por uma diferença racial.
A Abolição não marcou ainda o fim do preconceito, que persiste no Brasil apesar das leis. Mas constitui um marco na História, um momento de elevação nacional, uma data a ser celebrada por brancos e negros, para ser lembrada como início da luta destinada a igualar as raças, respeitando a dignidade humana independente de cor, credo ou qualquer outra distinção.

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