Editorial - A irritação de FHC
A irritação de FHC
Profundamente irritado, o presidente Fernando Henrique Cardoso disse que não é possível aceitar a todo o instante insinuações contra a base moral do Estado, de seus funcionários e gestores. Ele fez o comentário sem citar diretamente a ação do Ministério Público, que ajuizou ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, e outras cinco pessoas - entre os quais o ministro do Orçamento e Gestão, Pedro Parente -, além de quatro empresas. O presidente enfatizou que a base moral do Estado não pode ser posta em discussão, a menos que haja efetivamente algo. O presidente disse ainda, durante a visita ao Ministério de Orçamento e Gestão, feita para conhecer a estratégia do Plano Plurianual 2000, não ser mais possível que o gestor público fique preso a uma camisa-de-força com regras burocráticas, tendo depois que prestar contas do crime que não praticou e que, apenas para ser mais devotado ao objetivo que tem em vista, que é o da sociedade, deixou de praticar uma formalidade.
Fernando Henrique Cardoso insistiu em que algumas regras antigas ainda existem, das quais, em seu entender, muitas são meramente formais. Frisou que os tribunais de contas estão mudando e acompanhando todo o processo, não apenas julgando as formalidades e se as normas foram ou não cumpridas. O presidente chamou de hipócritas aqueles que se utilizam muitas vezes desses elementos formais para dar a impressão de que estão criticando a ação do Estado e do governo.
Insistindo em que acabou a época dos subsídios, das taxas de juro protecionistas, da reserva de mercado, do Estado guarda-chuva e dos lucros fáceis, o presidente afirmou ser lamentável que se confunda um projeto bom para o Brasil com a defesa dessas práticas do passado. Essa época acabou. Oligarquias industriais ou financeiras que vivem chorando pela falta de esperança no Brasil estão chorando por um passado no qual foram beneficiárias e que não vai voltar, disse. Temos que ter um futuro que beneficie o povo e não setores que se acastelaram na vida pública. Ele afirmou que está em marcha no Brasil um projeto nacional.
Em parte, é possível dar razão a Fernando Henrique Cardoso quando se rebela diante da repercussão que se dá diante de qualquer informação. Todavia, o próprio presidente observa que se existe alguma ilegalidade, é preciso que ela seja punida. E por mais que se conteste um eventual sensacionalismo em face de qualquer notícia envolvendo elementos do governo (mesmo que afastados), em especial quando levantando dúvidas sobre a probidade administrativa, o que não se pode esquecer é que a função pública exige uma integridade total. Suspeitas sobre o procedimento de ministros ou ex-ministros representam um fato que por si exige investigações e explicações. Sem dúvida, neste momento complicado que o governo federal atravessa, com uma sucessão de crises - algumas provocadas pelos próprios aliados de FHC -, é compreensível a irritação do chefe. O que, porém, não se admite é que se sugira que tais denúncias sejam esquecidas ou minimizadas.
O Brasil precisa, efetivamente, que cessem as crises e que se retome o trabalho, em todos os níveis. Entretanto, o que não é admissível é que em nome da necessidade de estabilidade para governar se deixe de lado a averiguação de denúncias envolvendo a administração pública. Incumbe ao governo federal, entre outras coisas, resolver suas crises - e, se possível, evitá-las -, criando condições para realizar seu trabalho. Só não pode é querer maquiar os fatos.





