‘‘Isto não é um filme.’’ A frase do marginal que manteve reféns, durante mais de 4 horas, em um ônibus urbano, numa área nobre do Rio, na segunda-feira, traz uma conotação muito importante em todo o clima de violência que se vive no País e do qual aquele foi apenas um episódio. O final do sequestro – mostrado ‘‘ao vivo e em cores’’ por emissoras de televisão – provocou polêmica e incontáveis comentários. Para muitos, neste Brasil que não contempla a pena de morte na sua legislação penal, o fuzilamento do marginal é justificado, restando apenas discussões sobre a falta de ‘‘competência’’ de quem o matou e que não impediu a morte de uma refém. Não faltaram, também, contestações a respeito do final do episódio – inclusive do próprio presidente da República.
O brado do sequestrador, de dentro do ônibus, informando que se tratava de um episódio da vida real e toda a ocorrência acabam servindo, também, como argumentos para os que vêm combatendo a proliferação da violência nos meios de comunicação. A televisão, em especial, acaba levando as maiores críticas porque entra na sala – e muitas vezes em outros aposentos – da casa de todas as pessoas. Segundo os que insistem em normas reguladoras para conter a programação da tevê, seja no aspecto ficcional ou mesmo nas coberturas do tipo ‘‘mundo cão’’, que proliferam por quase todos os canais e em quase todo o País, é justamente a violência incontida mostrada com um realismo cada vez maior o que acaba provocando ocorrências do tipo vivenciado no começo da semana no Rio.
Não se contesta a possível emulação (imitação de fatos vistos ou ouvidos) em muitas ocorrências da vida humana. É muito conhecida até a afirmativa segundo a qual ‘‘a vida imita a arte’’, sendo válido também perceber que, em muitos casos, a arte imita a vida. De qualquer modo, considerar o episódio do Rio ou tantas outras ocorrências cada vez mais violentas no Brasil (país que, até há bem pouco tempo, sequer conhecia em seu cotidiano a figura do ‘‘serial killer’’) como causadas ou motivadas apenas pelas cenas que a televisão, o cinema ou até os jornais e revistas mostram é fugir ao problema real. Nos anos 70, quando o País vivia o período do ilusório ‘‘milagre econômico’’, dizia-se que o Brasil era ‘‘uma ilha de paz em meio a um mundo violento’’. Mentira deslavada de um regime, o militar, que escondia seus crimes através uma eficiente máquina de censura que, pura e simplesmente, dificultava ou impedia a divulgação de qualquer coisa que não interessasse ao poder. A ‘‘paz’’ brasileira de então era uma mentira ou, como dizem alguns, a ‘‘paz do cemitério’’, lugar para onde iam todos quantos ousavam contestar as versões oficiais.
O que aconteceu no Rio, nesta segunda-feira, é uma das incontáveis ocorrências de violência que estão marcando a vida dos brasileiros, tanto nas grandes como nas pequenas cidades. Uma situação real que tem mobilizado as autoridades, provocando muitos debates, uma imensidão de sugestões mas, infelizmente, poucas soluções efetivas, até porque o problema todo não se resolve com uma ou outra medida, nem com discursos, mas com uma série de transformações em toda a sociedade. É preciso perceber a violência não como causa mas como consequência de uma realidade tenebrosa de vida, que envolve milhões de marginalizados, incluindo-se aí os desempregados que vão sendo levados ao desespero pela falta de decisões concretas que modifiquem toda a situação. Sem dúvida, é preciso mais e melhor policiamento em toda parte, assim como é necessário oferecer aos policiais melhores condições de trabalho. Mas é inegável que sem uma plena transformação do quadro econômico, não se conseguirá acabar com a insegurança que cerca a população brasileira.

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