A independência de Timor Leste
Embora tenha sido vítima de uma violência genocida por um quarto de século, desde que foi anexada pela Indonésia, Timor Leste pouco foi lembrada pelo mundo ao longo deste tempo. Como também sequer foi considerada nos 400 anos em que foi colônia portuguesa. Era apenas mais um dos muitos pedaços do mundo em que a força representava o poder e na qual o povo era apenas dominado sem qualquer contestação mundial. A História de Timor Leste tem, em certo sentido, muitos pontos em comum com a do Brasil, igualmente colônia portuguesa desde o século 16. Diferentemente do que ocorreu lá, o Brasil acabou conquistando sua Independência no século 19 – fato que será rememorado nesta terça-feira com toda a festa que o evento merece. Os timorenses, do outro lado do planeta, não conseguiram atingir este estágio nem mesmo na segunda metade deste século, quando o colonialismo europeu praticamente se findou. Ao contrário da independência, Timor Leste acabou foi caindo nas mãos de outro país, ao ser pela Indonésia há 25 anos.
O resultado desta dominação foi tenebroso. Um terço da população de Timor Leste morreu vítima da opressão indonésia neste período. Foi esta situação, porém, que despertou a nacionalidade, surgindo líderes e, finalmente, transformando a realidade brutal daquele povo em ponto de partida para este esforço que acabou no plebiscito que o governo indonésio determinou para saber qual a vontade do povo. Um plebiscito que, na verdade, apenas confirmou aquilo que era possível antecipar: três quartos da população timorense votaram pela liberdade. Isto, apesar da pressão de milícias indonésias, que provocaram novas chacinas ao longo da campanha que precedeu o voto popular. E não fosse a presença das Nações Unidas, é certo que ou o plebiscito teria sido suspenso ou a pressão e a fraude acabariam por criar um resultado falso.
O que se teve foi a afirmação de um povo que quer assumir seu destino. Mas que não vai ter facilidades para realizar este intento. Aparentemente, não deveria haver qualquer dificuldade. Afinal foi o próprio opressor, a Indonésia, quem convocou a consulta popular. E uma vez definida a vontade do povo, não há outra coisa a fazer a não ser respeitá-la. Todavia, sabe-se, a realidade não é assim. Os mesmos que criaram o pavor ao longo dos últimos tempos pretendem continuar a agir a fim de intimidar os timorenses. Quanto à Indonésia, seu governo vai ter dificuldades até para se manter diante deste resultado.
A corajosa decisão dos timorenses, que tiveram a ousadia de preferir a independência contra todas as ameaças e o terror implantado ao longo dos tempos e, principalmente, nos últimos meses, abre um novo capítulo para a História do ser humano. Não é mais de países ou nações que se trata, mas da decisão corajosa de gente que pretende assumir a própria identidade. É o povo quem decidiu, apesar de tudo. Ocorre que além da coragem, os timorenses têm pouco mais. Não têm armas, exércitos, força, poder. Sem dúvida, possuem o elemento mais importante, aquilo que expressaram com vigor no plebiscito: a coragem de preferir a liberdade, contra toda a opressão.
Mas se não houver apoio, como já assinalaram não só alguns de seus poucos líderes sobreviventes, mas também outras lideranças mundiais, e também força para contrapor à violência das milícias e do militarismo indonésio, o plebiscito pode se findar em um banho de sangue. Este é o teste do mundo em sua nova visão de humanismo. A ONU, que representa (ou pelo menos tenta fazê-lo) a parte lúcida da humanidade, tem a grande missão em Timor: fazer prevalecer a vontade de um povo contra a opressão dos que o querem manter escravizado. E não pode perder esta batalha, em nome mesmo da dignidade do ser humano.

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