A Independência atual
Durante os Jogos Pan-Americanos, recentemente disputados no Canadá, o Brasil passou por uma fase de euforia patriótica. As dezenas de medalhas conquistadas, o ouro que determinava a execução do Hino Nacional, a Bandeira erguida no lugar principal do mastro, tudo provocava emoções e lágrimas. E havia até reclamações porque o Hino não era apresentado na totalidade. Hoje, há mais motivos para se tocar e cantar o Hino, o País rememora a data histórica em que o príncipe regente D. Pedro resolveu pôr um fim na era colonial, dando vida a um país independente. É o dia em que ‘‘já raiou a liberdade no horizonte do Brasil’’, conforme as palavras do Hino que o próprio Libertador compôs no mesmo dia.
Passados 177 anos, o Brasil que ouviu o brado heróico das margens plácidas do Ipiranga mudou muito. Tem cantado o Hino na alegria de conquistas individuais ou coletivas que atestam o crescimento do seu povo. E embora ainda esteja longe de atingir o estágio tão anelado de uma nação desenvolvida, com todos os problemas resolvidos, é hoje uma nação mais madura, principalmente pela evolução da consciência de seu povo. A Independência que tem sido apresentada ao longo dos anos como um tipo de decisão unilateral de um homem, quase que um presente dado aos brasileiros, ganha uma nova conotação na medida em que cresce o senso de cidadania, com o povo deixando de ser apenas espectador para tornar-se partícipe das lutas pelas conquistas dos anseios comuns.
O Brasil, às vésperas do ano 2000, é naturalmente bastante diferente daquele que recebeu de Pedro I a Independência. Não é só porque o tempo passou ou pelo aumento da população, mas principalmente, pela evolução que se pode sentir na forma de ser e agir de cada um e de todos. A História – vale dizer a vida – do Brasil ao longo destes quase 2 séculos foi dura e complicada. Durante boa parte deste período, mesmo após a República, que em tese entregava ao povo pelos instrumentos democráticos o direito de escolher seu próprio destino, o que havia era uma casta dirigente estabelecendo as diretrizes para os brasileiros. Foi só nos anos finais do segundo grande período totalitário, nos anos 80, que se começou a ver a face real de um povo disposto a assumir o próprio destino. As manifestações de massa pela volta à democracia (mesmo enfrentando a ditadura) marcaram o início real da maturidade do brasileiro.
Com o fim da ditadura, surgiu um outro desafio, desta vez na esfera econômica. E foi então, desde o primeiro choque econômico deflagrado pelo governo José Sarney, que começou a surgir a consciência cidadã que se forjou nos duros reveses ocorridos em seguida e que ganhou contornos mais definitivos com o atual plano de estabilização. Foi a partir daí que os brasileiros começaram a fazer valer seus direitos, enfrentando com determinação os abusos de que eram vítimas ao longo dos tempos. Este despertar representa a verdadeira evolução política da população e é o grande fator a deflagrar o senso de uma cidadania adequadamente exercida.
Neste 7 de Setembro, a Independência que se festeja é o marco inicial de um processo. D. Pedro I merece, sem dúvida, as homenagens, o respeito, a lembrança comovida por tudo o que sonhou e fez para o Brasil. Mas tem sido no exercício do cotidiano, na luta destes últimos anos, na consciência de um povo heróico, como diz o Hino Nacional, que se forja a Independência que merece ser efetivamente festejada.

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