Editorial - A igualdade legal
A igualdade legal
Em todo o mundo, existem algumas pessoas que atingem posição de tamanho destaque que se convertem em ídolos, mitos, seres que parecem estar acima das limitações humanas. São artistas de cinema e TV, escritores, alguns políticos e, naturalmente, atletas. No Brasil, no setor do esporte, mais do que qualquer outro, os jogadores de futebol atingem uma dimensão mítica. Há, sem dúvida, justificativas para isto. Aqueles que superam certos limites, que conquistam glórias para si, mas que garantem à maioria uma alegria incontida, um momento de felicidade que faz esquecer as dores e as dificuldades da vida comum, ocupam um espaço especial na mente do povo, em alguns casos chegam a atingir um patamar tão elevado que provocam o êxtase pela simples existência. Na verdade, a responsabilidade por isto não é dos ídolos, mas de quem os coloca ali.
De qualquer modo, eles existem e são considerados importantes como prova da superação, podendo até servir de exemplo aos demais. Merecem, quase sempre, a gratidão e a homenagem que recebem. Entretanto, na medida mesmo em que evolui o conceito da cidadania, quando o ser humano começa a perceber sua própria força, quando recupera sua auto-estima, surge também a tão necessária avaliação concreta sobre este tipo de atitude. Grandes nomes, heróis de determinados momentos, conquistadores de glórias que também atingem a nacionalidade, são, basicamente, seres humanos como os demais. Em certo sentido, até porque muito receberam, como diz a própria Bíblia, muito também devem dar.
Ocorre que em alguns casos se os coloca em patamar tal que, de repente, como certos políticos, começam a considerar que estão acima de tudo e de todos, inclusive das leis. Há uma lista imensa de episódios que marcam bem isto, valendo lembrar o retorno da Seleção Brasileira de futebol, campeã do mundo em 1994, que veio, dizem, em dois aviões: um para a delegação, outro para as compras que deveriam, como acontece com todos, passar pelos trâmites legais, pagar os impostos. Mas houve grita, inclusive de alguns dos próprios jogadores que queriam tratamento diferenciado, como se não estivessem sujeitos à lei. Já então, era possível perceber uma sutil mudança no Brasil: antigamente, não se questionavam os deuses do futebol.
Na semana passada, atletas brasileiros que estão em Foz do Iguaçu, participando da Copa América de Futebol, acabaram sendo notícia porque, como todos os que visitam aquela cidade paranaense, resolveram ir às compras, no Paraguai. Normal. É certo que muitos vivem no exterior, sendo difícil pensar no que é que iriam encontrar no vizinho país que não teriam onde vivem. Mas são humanos, embora colocados em patamar diferente. Por causa até da fama, provocaram não só comentários, mas levaram a imprensa a buscar saber o que é que estes deuses compraram. E vieram revelações: compraram muito, bem mais do que o limite legal permitido, conforme se divulgou.
A reação a isto foi incrível: primeiro, manifestações de gente do povo, questionando este tipo de ilegalidade. Em seguida, a ação mesmo da Receita Federal, que foi investigar as compras dos atletas, inclusive daquele que é tipo como o mais importante de todos, Ronaldinho, que agora passou a ser Ronaldo. O atleta se explicou, informou-se que as compras anunciadas não se concretizaram e, aparentemente, o episódio se dilui. Mas as reações que ocorreram, o destaque do tema na imprensa e a atitude das autoridades revelam o sinal mais importante de todo o caso: o de que todos são iguais perante a lei, como ensina o mais simples dos postulados democráticos.





