Editorial - A hora errada
Em momentos de crise profunda, na iminência ou até em meio a uma guerra, o chamamento à união nacional constitui uma possibilidade. Já numa época menos grave como a atual, quando os perigos que ameaçam o País podem ser considerados sérios mas não alarmantes, o convite a um debate entre todas as forças vivas da nação, visando encontrar caminhos, pode até ser considerado. Todavia, é fora de dúvida que faltando seis dias para as eleições, o chamado do presidente Fernando Henrique Cardoso à oposição, para um debate profundo visando encontrar alternativas capazes de resolver os problemas, desponta, no mínimo, inoportuno.
Em tese, os brasileiros estão nestes dias fazendo sua avaliação com vistas ao pleito de quatro de outubro. Ainda falta muito para que se possa considerar que a população toda tenha plena consciência do que significa a afirmativa constitucional segundo a qual todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido. Até por isto, não são poucos os que consideram as eleições uma perda de tempo. Mas, felizmente, percebe-se que é ponderável o total dos que entendem o papel que são chamados a desempenhar nas urnas. E, naturalmente, é de se esperar que pelo menos os partidos e os políticos, ainda mais alguém que se encontra no chamado topo da pirâmide, o presidente da República, entendam o significado das eleições.
A falta de oportunidade do convite presidencial é precisamente devido à proximidade do pleito. O sr. Fernando Henrique Cardoso chama a oposição para um debate logo que termine a disputa eleitoral. Entretanto, ao que se saiba, só depois do pleito é que se poderá saber quem é situação e quem é oposição! Naturalmente, o presidente em campanha pela reeleição está bastante otimista em relação ao pleito, confiante na sua mensagem e, sem dúvida, nas pesquisas que apontam uma provável vitória pessoal no primeiro turno. Ainda assim, há outros fatores envolvidos. Os brasileiros vão eleger também governadores, uma nova Câmara Federal, novas Assembléias, um terço do Senado. Ganhando, o sr. Fernando Henrique será situação, mas pode se defrontar com uma oposição muito forte na Câmara e nos Estados.
Ademais, é importante ter em vista todo o recado que o povo dará nas urnas de quatro de outubro. Só depois do pronunciamento do eleitorado é que será possível ter uma idéia mais clara sobre a situação nacional e, principalmente, a respeito do pensamento do detentor do poder, o povo. Sem dúvida, o Brasil precisa adotar medidas sérias e concretas logo em seguida às eleições. E talvez se torne mesmo importante um encontro entre os eleitos, tanto para os Executivos quanto para os Legislativos, buscando um grande debate nacional sobre o futuro. Isto, porém, deverá depender fundamentalmente da leitura relativa aos resultados do pleito. A possibilidade da eleição do sr. Fernando Henrique Cardoso no primeiro turno, apontada pelas pesquisas, não encerra a questão. A situação dos partidos, inclusive o do presidente e os que lhe dão sustentação, deve também ser analisada e ponderada.
De fato, ainda que a reeleição dê uma idéia de continuidade (naturalmente, se o titular do Executivo conseguir um novo mandato), é certo que o pleito produz um novo quadro político, refletindo a opinião do eleitor neste momento da vida nacional. O próprio detentor do Executivo reeleito há de se recolocar diante desta nova realidade, inclusive na formação de seu governo. Novas alianças podem ser formuladas, antigas precisam ser restabelecidas. Este é o trabalho político pós-eleitoral. É certo que muita coisa ainda pode (e deve) ser feita até a nova posse. Mas é algo para depois. Antecipar este debate dá uma ligeira impressão de demagogia pré-eleitoral.





