Editorial - A hora é de diálogo
A iniciativa do presidente Fernando Henrique Cardoso de promover um amplo debate nacional, com a participação da oposição, buscando discutir o modelo de desenvolvimento do País, chega num momento oportuno não só para o governo como para toda a população brasileira. É evidente que com o vendaval econômico, impulsionado pela desvalorização do real e a fuga de dólares, o Planalto se vê na contingência de criar fatos novos para sinalizar que tem o controle da situação e que está mais do que nunca aberto ao diálogo. Acima de qualquer estratégia de marketing, porém, fato é que uma ampla conversação se impõe hoje como indispensável no Brasil da crise.
O principal articulador político do Planalto, o ministro das Comunicações Pimenta da Veiga, assegura que o presidente estaria disposto a correr o País todo num esforço destinado a ouvir de perto os sindicatos, setores empresariais, entidades representativas da sociedade, partidos de esquerda e o próprio Congresso. A idéia é encontrar em conjunto fórmulas capazes de garantir a criação de novos empregos e melhorar a renda dos brasileiros para reverter o desânimo causado pelas turbulências na economia. Tal amplitude de ação leva, evidentemente, a vários questionamentos. E o principal é um só: por que o governo não ouviu antes a sociedade, mesmo quando tantos segmentos pediam correção de rumo no Plano Real, buscando justamente salvaguardar uma estabilidade que os brasileiros por décadas esperaram? É possível um diálogo eficaz justo no meio do furacão, com os ânimos alterados e um horizonte indefinido?
As perguntas são lícitas, mas a verdade é que o impasse em que se encontra o Brasil não dá mais margem para soluções mirabolantes. A hora é de diálogo em todas as frentes. Em Minas, por exemplo, uma pesquisa mostra que mais de 70% da população de Belo Horizonete quer que o governador Itamar Franco tome a iniciativa do diálogo com o presidente FHC para resolver o problema da dívida do Estado. A moratória decretada por Itamar teve o efeito de uma bomba nas economia globalizada, mas, no varejo, o que a população pede agora é que os políticos se entendam o quanto antes - pois quanto mais cedo resolverem os problemas, menos sofrimento haverá para ela. Sem um pacto contra a inflação e a recessão fica impraticável qualquer projeto de desenvolvimento, este é o sinal mais evidente no Brasil de hoje. É o momento grave do olho no olho e da profunda sinceridade de propósitos.
Fernando Henrique Cardoso perdeu ele próprio, ao longo do tempo, seus principais interlocutores no poder - Sérgio Motta, Luiz Eduardo Magalhães, José Roberto Mendonça de Barros - e amarga um período de solidão no núcleo do poder que certamente o leva ao desejo de ir ao encontro da sociedade. Junte-se a isto o profundo desgaste do Planalto ao semear a desinformação no início da crise, quando anunciava ao País e ao mundo a manutenção do sistema de bandas no momento em que já o havia sepultado, fazendo valer a velha história de que aquilo que o governo diz tem que ser lido ao contrário. Surge agora um chamamento deste mesmo governo cuja aceitação é recomendada pelo bom senso. O Planalto tem a oportunidade de ouvir de perto as sugestões e os clamores. E os representantes da população, em vários setores, têm a chance de contribuir diretamente com os rumos do País.
O desafio deste novo debate nacional é o de ocorrer em bases sólidas e factíveis, com resultados práticos e, mais do que tudo, com uma perspectiva de avanço econômico que não contemple apenas o dia seguinte. Propostas no cenário atual como as do ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro (PT), de abreviar o mandato do presidente FHC com a convocação de eleições presidenciais em outubro deste ano, servem apenas para tumultuar ainda mais o ambiente político e em nada contribuem para a busca de saídas duradouras num País com sede de futuro.





