Editorial - A hora do consumidor
A hora do consumidor
A dívida pública brasileira subiu R$ 14 bilhões por causa da desvalorização do real. É uma consequência esperada, até porque a dívida é em dólar. Cai o valor da moeda nacional, naturalmente a dívida se eleva. O problema é que se está vendo uma alta quase que generalizada de preços, muitos sem qualquer vinculação com a moeda estrangeira. Naturalmente, sempre é possível dizer e os especuladores são mestres nisto, com uma experiência de décadas ao longo do período de descalabro da economia brasileira , que mesmo um produto que não tenha coisa alguma a ver com a importação sofre efeitos da desvalorização da moeda. É aquele famoso círculo vicioso de uma economia em que tudo se entrelaça, de tal modo que até o vendedor de garapa no caminhão estacionado na rua também eleva o preço porque, afinal, o veículo é movido a gasolina, que é derivada do petróleo, que é importado em dólar... O presidente Fernando Henrique Cardoso já fez até um apelo a respeito, pedindo que não se repita agora o fenômeno de um passado ainda recente, quando qualquer coisa era motivo para a elevação dos preços.
Infelizmente, se mesmo em época de grande popularidade do chefe da Nação um apelo presidencial tem pouco efeito, é possível imaginar o que significa hoje. E mais útil é quando o governo usa o poder que tem para proporcionar meios de proteção ao consumidor, como no caso da questão dos genéricos, em relação aos remédios. Ao que parece, porém, diante da fúria especulativa e de um aparente retorno da exploração, medidas oficiais não chegam a ter efeito direto e imediato. A resultante é uma alta de preços, uma elevação no custo de vida, o que tem sido sentido e percebido pela população nos últimos tempos.
A resposta a esta aparente escalada de altas tem de ser, outra vez, do consumidor, que já mostrou, notadamente nos primeiros tempos do plano de estabilização, uma consciência e uma disposição que foram tão ou mais eficazes do que as próprias medidas oficiais. Antes que volte a ainda não esquecida lei da selva dos preços, incumbe uma retomada da consciência do cidadão, o que é uma das poucas armas disponíveis neste momento. Os especuladores e exploradores não se aposentaram, nem mudaram de modo de agir. Ficaram à espera e agora voltam a agir em quase todos os campos. A especulação nos preços dos combustíveis está bem visível. E nas prateleiras dos supermercados, ponto quase obrigatório da maioria dos consumidores, também é possível perceber esta nova situação.
Somem produtos mais baratos, determinados gêneros alimentícios apresentam preços iguais sempre bem elevados , o que dá uma impressão de acordo entre as partes, articulação proibida pela lei. Entretanto, e embora haja um esforço real dos órgãos de defesa do consumidor, o país é imenso, os problemas explodem por todos os lados, não há sequer condições efetivas para acionar aqueles organismos na medida do necessário. O que leva de volta à necessidade de uma atitude firme do consumidor, usando sua força para reduzir a especulação e fugir da exploração.
A inflação não pode voltar. O brasileiro já percebeu como é valioso viver em um clima de moeda quase estável. Ademais, existe uma realidade ainda mais concreta: os preços sobem, mas os salários, de modo geral, estão quase congelados, ainda que não oficialmente. Por outro lado, não se pode deixar de considerar o desemprego e o subemprego. Mesmo que queira, o consumidor não vai poder acompanhar a escalada de alta. Por outro lado, se se negar a pagar o abuso, se buscar a alternativa mais barata, se inclusive deixar de comprar, vai acabar forçando a restauração da lei do mercado e conseguirá o que apelos presidenciais não conseguem: reduzir a escala altista dos preços.





